Sarah Santiago, 23 anos, aluna da UNIFESP Guarulhos, representa o Alto Tietê na ExpoFavela Brasil neste fim de semana (29 e 30 de novembro). A estudante de História da Arte concilia trabalho no Museu da Cidade de São Paulo com estudos e produção de arte abstrata. Além disso, nada disso estava nos planos dela para 2025.
Ela conta que este tem sido um ano de realizações, mas também desafios. Nascida em Guaianases, radicada em Itaquaquecetuba e, hoje, estudante da UNIFESP Guarulhos, Sarah representa o Alto Tietê na ExpoFavela com estilo único e cores vibrantes. Portanto, 2025 se tornou ano de mudanças aceleradas, mas de conquistas inesperadas na vida da jovem artista.
A aprovação na ExpoFavela Brasil foi um pouco assim. “Eu achei que ia ser totalmente diferente, achei que ia ser outras pessoas, mas foi bem simples o processo para entrar”, conta a aluna da UNIFESP Guarulhos. Dessa forma, o evento reúne talentos periféricos de todo país no maior evento de economia criativa das periferias.
Trajetória da UNIFESP Guarulhos ao Alto Tietê e ExpoFavela: uma artista acelerada
A história de Sarah com a arte começou durante ensino técnico em mecânica no Instituto Federal. Segundo ela, a pressão para entrar rapidamente numa universidade federal foi intensa. “Essa pressão fez bem e fez mal ao mesmo tempo, porque me colocou essa ânsia de querer entrar numa faculdade, estudar”, explica.
Em 2019, ela conseguiu vaga no PROUNI para Artes Visuais na Universidade de Franca SP (UNIFRAN). O curso de licenciatura durava três anos. Portanto, Sarah aproveitou o tempo curto para se dedicar também a cursos complementares. “Essa dinâmica da Federal me colocou que o tempo todo eu ia ter que estar estudando para melhorar”, afirma.
Além disso, ela descobriu que artes é uma questão de currículo. “Tenho que correr contra o tempo. Ao mesmo tempo que estou fazendo faculdade, vou fazer curso, vou melhorar as minhas técnicas e preciso de experiência”, explica. Segundo Sarah, conseguir experiência em artes é muito difícil.
Por falar em currículo, a estudante também acumula uma Pós Graduação em Ensino de Artes Visuais pela Universidade Federal de Minas Geraos (UFMG).
De sarau no Alto Tietê à ExpoFavela
O caminho até a ExpoFavela Brasil começou de forma orgânica, em saraus periféricos. Sarah conheceu um amigo que tinha sarau em São Miguel Paulista, na Praça do Forró. “Ele me chamou para expor e aí eu pensei: por que não pintar ao vivo?”, relembra.
Durante um ano e meio, Sarah pintou ao vivo todo mês no sarau. Dessa forma, foi conhecendo mais pessoas do campo da arte. Além disso, criou rede de contatos que se mostrou fundamental depois.
Quando foi morar em Itaquaquecetuba, no Alto Tietê, saiu o primeiro edital de projetos culturais da cidade. “Como eu não estava conseguindo muito retorno em sarau, comecei a pensar em produção”, explica. Portanto, decidiu fazer sua primeira exposição com Lei Paulo Gustavo.
Assim, Sarah investiu em produção cultural, expondo em diferentes lugares. Além disso, atuou como produtora, curadora e artista simultaneamente. “A partir disso eu fui investindo nessa área de produção, investindo na minha arte“, conta.
ExpoFavela Regional vs Nacional
Sarah participou primeiro da ExpoFavela Regional em São Paulo. Segundo ela, naquela edição era necessário enviar obras específicas para análise. “Tinha que enviar obras e eles iam analisar”, explica.
Na ExpoFavela Brasil, o processo foi diferente. “Eles analisaram meu currículo. Eu descrevi, expliquei sobre o meu trabalho, sobre o que eu faço”, conta. Além disso, depois teve chamada das pessoas selecionadas. “Aparentemente foram as que mais chamaram a atenção, e depois pediram o portfólio”, complementa.
Porém, a experiência com o público foi diferente entre as duas edições. “Na de São Paulo, as pessoas estavam mais interessadas em saber sobre o que significava, sobre o processo”, considera. Segundo ela, teve conversa de mais de meia hora com visitante falando sobre telas e processo criativo.
Na ExpoFavela Brasil, a dinâmica foi mais acelerada. “Aqui foi mais de passagem. Porque não tinha nenhum lugar para os artistas sentarem, então as pessoas só chegavam, tiravam fotos ou pegavam Rede Social (Instagram)”, explica.
UNIFESP Guarulhos e Alto Tietê na ExpoFavela: formação que abre portas
Sarah estuda Bacharelado em História da Arte na UNIFESP Guarulhos. Segundo ela, a formação dialoga diretamente com produção artística. “Fazendo primeiro a licenciatura em Artes, aprendi muita técnica, didática, de como falar com o público”, explica.
Agora no bacharelado, ela entende mais a parte teórica. “Entendo como cada vertente artística, como a história da arte se constrói”, afirma. Além disso, aprendeu sobre arquitetura. “Agora eu vejo a cidade com outro olhar”, completa.
Para Sarah, ser estudante da UNIFESP Guarulhos que representa o Alto Tietê na ExpoFavela faz diferença no mercado de trabalho.
“Faz mais sentido para o campo do mercado artístico, pensando em museu e instituições”.
Explica.
O desafio de conciliar três rotinas
Conciliar trabalho, estudos e produção artística não estava nos planos de Sarah para 2025. “Eu não me preparei este ano para isso”, admite. Segundo ela, estava na Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa de São Paulo e decidiu trocar de equipamento de última hora.
“Fiz a entrevista, fiz a reunião com o pessoal da equipe e na outra semana eu já sabia que ia entrar”, relembra. Além disso, começou a pegar dinâmica do museu muito rapidamente. “Passei por um processo assim, muito rápido”, explica.
Paralelamente, tentava vaga de reingresso na UNIFESP. “Eu também não achava que ia fazer outra graduação este ano”, conta. Segundo ela, só fez de última hora. “Faltava uma semana para o processo finalizar. Aí eu fiz e do nada estava no bacharelado na UNIFESP”, relembra.
Sarah pensava em fazer mestrado, mas no ano seguinte. “Eu achei essa oportunidade e falei: pode ser. Só que ao mesmo tempo não pensei nas possibilidades”, explica. Segundo ela, fazer muitas coisas ao mesmo tempo gera consequências.
“Eu faço atividade no museu, tenho que pensar nas minhas artes, e agora tem a faculdade que é de noite”, lista. Portanto, fica questão de deixar sempre arte de lado. “Às vezes pesa para mim, porque eu gosto muito de pintar, gosto muito de ser artista”, desabafa.
Porém, Sarah entende necessidade estratégica.
“Às vezes a gente tem que deixar essas coisas de lado para buscar currículo e buscar nome, ter um nome, ser conhecida, para depois poder fazer o que eu realmente quero e o que eu realmente gosto”.
Multifacetada: da pintura à direção de arte
Sarah não se limita à pintura. Recentemente, participou como diretora de arte do curta-metragem “Arandu”, dirigido por Vitoria Rocha. O projeto foi viabilizado pela PNAB (Política Nacional Aldir Blanc) e caiu em Itaquaquecetuba.
“Fiz algumas partes visuais do projeto, pensei tanto nas colorações, no figurino e nas posições dos objetos que dessem sentido à cena”, explica Sarah. Segundo ela, o curta busca resgatar mais que a história, mas também a identidade cultural de Itaquaquecetuba.
“Itaquaquecetuba não conserva sua memória. Então ela [Vitoria] quis resgatar isso com um curta! Como o projeto deixa bem claro: ‘narrar um território é também disputar qual mundo merece existir nas telas'”. destaca. De acordo com Sarah, o curta-metragem procura colocar Itaquaquecetuba em primeiro plano, para que mais uma periferia não deixe de ter voz, vida — já que é bem corriqueiro que as é que as cidades periféricas sejam silenciadas. O projeto completo está documentado no Instagram @arandufilme.
Sinestesia: quando música vira pintura
O processo criativo de Sarah é fortemente influenciado por música. “A música está 100% inserida em meu trabalho”, afirma. Segundo ela, é ponta inicial e indispensável nos processos criativos.
Para ExpoFavela, Sarah trabalhou com música de forma específica. “Pensei em trabalhar com música como fundo e não como protagonista”, explica. Dessa forma, a sonoridade acompanha criação sem dominar processo.
Atualmente, sua principal inspiração é o álbum “Carranca“, da artista Urias. “Trouxe muita ancestralidade, muita brasilidade”, explica Sarah. Segundo ela, é sentimento também. “Envolve questão da artista, que eu me vejo nesse lugar também. Do que a gente quer deixar, qual é o legado que a gente quer deixar”, completa.
Mulheres negras periféricas no mercado de arte
Sarah enfrenta obstáculos específicos como mulher negra periférica. “Acho que todos os olhares, principalmente sobre o nosso trabalho”, afirma. Segundo ela, às vezes tem trabalho visto como iniciante.
“Como se eu não dominasse muita técnica, e o mercado não fica de olho em você”, explica. Portanto, é necessário começar passo a passo. “Meio que implorando para conseguir. E quando vem, às vezes você é desmerecida”, desabafa.
A questão da idade também pesa. “Ah, você é muito nova, tem muito tempo… tem muito para aprender ainda”, reproduz Sarah, imitando comentários que já ouviu. Dessa forma, juventude se torna obstáculo em vez de potencial.
Próximos passos da artista do Alto Tietê: França, galeria e exposição solo
Sarah já sabe que ExpoFavela tem edição na França. “Eu quero pensar em como expor lá”, afirma. Além disso, planeja exposição de acervo próprio para 2025.
Outro sonho é abrir galeria. “Principalmente em pensar numa galeria para abrir as portas para expor arte e eventos afins que são realmente focados em artes plásticas”, explica.
Para Sarah, o curso na UNIFESP é lugar para adquirir todo o conhecimento. “Como um lugar que eu vou aprender muito, vou levar muita coisa, mas não vai ser um lugar que eu quero estar presente com o meu trabalho“, afirma. Segundo ela, o foco está no mestrado futuro.
Como acessar a arte de Sarah Santiago
Sarah vende obras, faz encomendas e oferece prints com baixo custo. “Principalmente pelo Instagram, que é o local onde eu coloco o meu processo artístico”, explica. Além disso, parte de seu trabalho pode ser vista no Museu da Cidade de São Paulo, onde atua em colaboração com o núcleo educativo do órgão.
O Instagram @sah.santiagoo concentra portfólio, processo criativo e informações sobre disponibilidade de obras.
Recado para jovens artistas
Para jovens artistas de Guarulhos, Alto Tietê e São Paulo, Sarah deixa mensagem de perseverança.
“Principalmente, pensar no seu sonho. Isso é uma dificuldade que eu vejo nas pessoas hoje em dia, de abandonar muito fácil o que elas querem”.
Afirma.
Segundo ela, caminho não é linear. “Não vai ser 100% legal a todo momento, tem vezes que você vai querer desistir, eu já quis várias vezes”, admite. Porém, resultado compensa esforço. “Mas quando a gente consegue pular uma etapa, dá forças para as próximas”, finaliza.

