Na última quarta-feira, 17 de maio, o Instituto Butantan, em conjunto com o Hemocentro de Ribeirão Preto, a Universidade de São Paulo (USP) e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), firmou um importante acordo de cooperação. A iniciativa visa acelerar o desenvolvimento de terapias avançadas, sobretudo para combater doenças autoimunes graves que afetam milhares de brasileiros.
Esta parceria estratégica marca um avanço significativo na pesquisa biomédica nacional, pois ela estabelece as bases para a realização de ensaios clínicos inovadores. O foco principal recai sobre a terapia celular CAR-T, considerada uma das mais promissoras ferramentas no tratamento de condições complexas e de difícil manejo.
Primeiramente, os estudos direcionarão esforços para o lúpus eritematoso sistêmico (LES) e a miastenia gravis generalizada (MGg). Contudo, antes do início efetivo das pesquisas com pacientes, os protocolos devem passar por rigorosas etapas regulatórias, necessitando da aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para garantir a segurança e eficácia.
Detalhes da Colaboração Pioneira
O evento de formalização do acordo reuniu importantes nomes da ciência e da gestão pública. Estiveram presentes Esper Kallás, diretor do Instituto Butantan, e Saulo Nacif, diretor-executivo da Fundação Butantan, evidenciando o compromisso institucional com a iniciativa.
Adicionalmente, Rodrigo Calado, diretor-presidente da Fundação Hemocentro de Ribeirão Preto, Aluísio Segurado, reitor da USP, e Marco Antonio Zago, presidente da FAPESP, também participaram. Essa presença conjunta sublinha a multidisciplinaridade e a amplitude do apoio científico e financeiro ao projeto.
Visão Estratégica para a Saúde Pública
De acordo com Esper Kallás, a terapia celular representa uma revolução no tratamento de câncer e doenças crônicas ou autoimunes. Essa tecnologia age diretamente nas células afetadas, prometendo soluções mais eficazes e menos invasivas para os pacientes.
O principal objetivo da colaboração, conforme Kallás, é democratizar o acesso a essa tecnologia avançada. Portanto, a meta é que, no futuro, as terapias desenvolvidas estejam disponíveis para todos os brasileiros, inclusive por meio do Sistema Único de Saúde (SUS), alinhando-se à missão do Butantan de propor soluções para a saúde pública.
As Doenças em Destaque no Estudo
O lúpus eritematoso sistêmico (LES) é uma doença inflamatória crônica de origem autoimune, caracterizada por sua natureza multifacetada. Sua evolução pode ser rápida ou progredir lentamente, impactando diversos órgãos e sistemas do corpo humano.
Frequentemente, o LES manifesta-se por sintomas como febre, emagrecimento inexplicável, perda de apetite e intensa fraqueza. Dada a complexidade de seus sintomas, o diagnóstico precoce e o tratamento adequado são cruciais para a melhoria da qualidade de vida dos pacientes.
Impacto da Miastenia Gravis Generalizada
Por outro lado, a miastenia gravis generalizada (MGg) é outra doença autoimune debilitante que afeta a comunicação entre nervos e músculos. Consequentemente, ela provoca fraqueza muscular progressiva, que pode variar de leve a grave.
Em casos mais avançados, a MGg pode gerar sérias dificuldades em funções vitais. Isso inclui problemas para engolir (disfagia), falar (disartria) e, notavelmente, respirar, exigindo intervenções médicas urgentes e acompanhamento contínuo.
Próximos Passos e Potencial Alcance Social
Uma vez aprovados pela Anvisa, os estudos clínicos planejam recrutar 16 pacientes adultos de ambos os sexos, diagnosticados com lúpus eritematoso sistêmico. Adicionalmente, 10 pacientes adultos com miastenia gravis generalizada serão incluídos no programa de pesquisa.
Os voluntários para esses ensaios serão selecionados em renomadas instituições de saúde. Primeiramente, o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP-USP) e, em segundo lugar, o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, em São Paulo, atuarão como centros de recrutamento.
Critérios de Seleção e Esperança para o SUS
É crucial que ambos os grupos de pacientes incluam indivíduos com quadros graves das doenças. Além disso, eles deverão ter passado por pelo menos dois tipos de tratamento convencional sem obter uma resposta satisfatória, evidenciando a necessidade de abordagens terapêuticas inovadoras.
Conforme Rodrigo Calado, este novo projeto representa um passo fundamental para expandir o uso de terapias avançadas. Dessa forma, busca-se oferecer esperança a pacientes com doenças autoimunes severas que, atualmente, contam com opções limitadas de tratamento.
Se os resultados forem positivos, o SUS estará na vanguarda mundial em relação às terapias avançadas em sistemas públicos de saúde. Essa projeção reforça o potencial de transformar a saúde brasileira, proporcionando acesso universal a tratamentos de ponta.
Contexto e Pioneirismo da Terapia CAR-T no Brasil
Desde 2022, o Instituto Butantan, o Hemocentro de Ribeirão Preto e a USP já mantêm uma colaboração ativa. Esse trabalho conjunto visa o desenvolvimento da terapia CAR-T focada em leucemia linfoide aguda de células B e linfoma não-Hodgkin de células B, demonstrando uma expertise prévia consolidada.
O tratamento é desenvolvido no Núcleo de Terapias Avançadas (Nutera), que possui unidades estratégicas tanto em São Paulo quanto em Ribeirão Preto. Em 2024, as instituições iniciaram o ensaio clínico de fase 1, o qual tem apresentado resultados promissores, alcançando mais de 87% de eficácia contra casos graves.
Novas Perspectivas e Entendendo a CAR-T
Durante o evento de celebração do acordo para doenças autoimunes, o Instituto Butantan também formalizou uma parceria com a biofarmacêutica chinesa IASO Bio. Este acordo, assinado em abril, visa expandir ainda mais o leque de pesquisas, focando no desenvolvimento de uma nova terapia avançada contra câncer hematológico.
A terapia celular CAR-T, originada nos Estados Unidos em 2010 e fruto de mais de 60 anos de estudos, representa um marco na medicina. Essa tecnologia inovadora modifica geneticamente os linfócitos T do paciente, as células de defesa, capacitando-os a combater especificamente as células tumorais.
Inicialmente, essa abordagem foi primariamente utilizada no combate ao câncer, devido à sua capacidade de atuar de forma alvo-específica. Contudo, devido à sua precisão, a CAR-T tem sido cada vez mais investigada como uma solução potencial contra doenças crônicas e autoimunes, abrindo novos horizontes terapêuticos.
No contexto brasileiro, a terapia CAR-T começou a ser testada em 2019, direcionada a pacientes com leucemia e linfoma que não respondiam aos tratamentos convencionais. Os resultados iniciais foram bastante animadores, com uma taxa de 80% de eficácia na redução dos tumores, consolidando a relevância dessa pesquisa no país.

