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Comunidade Padre Bento leva famílias à Câmara de Guarulhos

Comunidade Padre Bento Câmara Guarulhos

Foto: TV CÂMARA GUARULHOS/Youtube

Moradores da Comunidade Padre Bento foram ao plenário da Câmara Municipal de Guarulhos na tarde desta quarta-feira (29). Representantes de cerca de 90 famílias ameaçadas de despejo pela CDHU foram cobrar posicionamento dos vereadores sobre a reintegração de posse. Além disso, a sessão revelou dados inéditos sobre a dívida milionária da companhia estadual com o município.

A moradora Karina Marques representou a comunidade durante a sessão. Dessa forma, questionou diretamente os parlamentares sobre medidas concretas para impedir o despejo. Segundo ela, aproximadamente 300 pessoas estão prestes a virar moradores de rua em Guarulhos. Portanto, a cobrança foi direta: “O que esta Câmara vai fazer para impedir que isso aconteça?”

Moradora questiona omissão da Câmara

Karina iniciou sua fala agradecendo ao presidente Martello pela oportunidade. Além disso, contextualizou a situação das famílias que ocupam área da CDHU há anos.

“Sou uma das 300 moradoras da comunidade Padre Bento, comunidade essa que a CDHU quer pôr na rua, sem nenhum respaldo, sem nenhum amparo, sem nenhuma proposta de reassentamento”.

A moradora destacou que as famílias receberam ordem de despejo de 60 dias. Além disso, questionou a coincidência entre a reintegração e projetos do governo estadual para a área. “Existe um projeto do governo do Estado, em parceria com a prefeitura de Guarulhos e a Secretaria de Habitação, para fazer um parque, uma revitalização ali na área”, explicou.

Segundo Karina, a comunidade ocupou área abandonada há 30 anos pela CDHU. “Onde existia mato, era refúgio de usuários de droga. Até ossos enterrados naquele local nós encontramos quando estávamos construindo”, relatou. Portanto, questionou por que o projeto de parque não pode ser realizado em outras áreas ociosas do bairro.

“Isso não é sobre lazer. Isso é sobre tirar os pobres da região. É varrer a população pobre do bairro! Porque é um bairro valorizado, não é?”, provocou a moradora. Além disso, cobrou: “Nós exigimos que esta Câmara oficialmente se posicione em relação a essa reintegração de posse.”

Veja a fala de Karina Marques:

Martello responde sem detalhar ações

O presidente da Câmara, vereador Martello, respondeu à moradora. No entanto, em vez de apresentar medidas concretas, focou em corrigir afirmação de Karina. “Eu só discordo da Karina em uma frase: ‘Nós elegemos vocês’. Não é verdade. O Padre Bento não elegeu ninguém”, afirmou.

Segundo Martello, todos os eleitores contribuem para eleição de vereadores. “Quem elege é o povo. O Mesquita está tendo 19 mil votos. O Janete, 9 mil. Eu, 7 mil. Todo mundo que votou, ajudou a me eleger”, explicou. Além disso, ressaltou histórico de 40 anos de trabalho no bairro.

O vereador defendeu direito à moradia. “Casa todo mundo quer. ‘Minha Casa, Minha Vida’, o governo Lula deveria investir mais nisso. Porque, realmente, o que dá dignidade ao cidadão e à cidadã é ter uma casa para morar”, declarou. No entanto, não detalhou quais ações a Câmara tomará sobre o caso.

Martello encerrou pedindo respeito aos políticos. “Lutem pelo que vocês querem, mas respeitem também os políticos, porque infelizmente todos nós dependemos dos políticos”, afirmou. Portanto, deixou claro que a palavra será concedida quando solicitada.

Veja o momento:

Fernanda Curti já havia se posicionado antes da sessão

Antes da manifestação no plenário, a vereadora Fernanda Curti havia enviado posicionamento ao Guarulhos Online nesta quarta-feira (29), antes da 63ª Sessão Ordinária da Câmara Municipal de Guarulhos. Em resposta a questionamentos da reportagem, ela já indicava as medidas que seriam anunciadas horas depois. Aliás, de todas as autoridades questionadas, apenas a parlamentar deu sua resposta.

“Esta ação é apenas mais um exemplo da forma como o Estado, na maioria das vezes, trata as famílias em situação de vulnerabilidade habitacional”, afirmou Curti. Segundo ela, a omissão da Prefeitura de Guarulhos não pode ser considerada normal. “A CDHU tem dívida milionária de IPTU e a posse da área já deveria ter sido incorporada ao município”, destacou.

Além disso, criticou tratamento dado às famílias. “É inaceitável que famílias inteiras sejam tratadas como criminosas, quando na verdade são vítimas de um governo que não assegura o direito básico à moradia digna”, completou.

A vereadora classificou a situação como violação de direitos fundamentais. Curti argumentou:

“Quando o poder público se omite dessas responsabilidades, o que se vê é a violação direta de direitos fundamentais, previstos na Constituição Federal e no Estatuto das Cidades”.

Vereadora revela dívida: mais de R$ 20 milhões

A vereadora Fernanda Curti (PT) manifestou solidariedade à comunidade. Além disso, revelou dados inéditos sobre débitos da CDHU com Guarulhos. “Uma área pública de uma companhia do governo do Estado está, pelo menos desde 2001, sem pagar IPTU nesta cidade”, denunciou.

Segundo a vereadora, a dívida pode ser ainda mais antiga. Conforme reportagem anterior do Guarulhos Online, registros indicam que o débito pode remontar a 1995. “A CDHU não honra com seus compromissos com o município de Guarulhos”, criticou Curti. Além disso, apontou que o valor ultrapassa R$ 20 milhões.

A parlamentar destacou contradição na atuação da companhia. “Olha que contrassenso, não é? A gente pega uma companhia que deveria garantir habitação popular para as pessoas, atuando para remover famílias e colocá-las no olho da rua”, afirmou.

Curti solicitou ao vereador Lamé, presidente da Comissão de Direitos Humanos, marcação de audiência pública. Além disso, anunciou que encaminhou requerimento de informação questionando projetos da CDHU para a área. “Curiosamente, essa área está próxima ao prédio da FURP. Ou seja, certamente a especulação imobiliária também está de olho onde estão essas famílias”, observou.

O Guarulhos Online falou recentemente sobre o Projeto de Lei que visa a Extinção da FURP (leia aqui).

Área consolidada e fila habitacional

Fernanda Curti ressaltou características da ocupação. Segundo a vereadora, a área já está consolidada com infraestrutura completa. “Tem água, esgoto, tem CEP. São ruas que já têm CEP. Ou seja, é um bairro consolidado”, explicou.

A parlamentar destacou impacto da reintegração no déficit habitacional municipal. “Remover aquelas famílias vai gerar mais um prejuízo para a cidade de Guarulhos, que já ostenta uma fila de mais de 10 mil famílias aguardando moradia digna”, alertou.

Além disso, Curti criticou situação das famílias durante processo. “Hoje elas dormem com a casa, mas não têm a segurança de que no dia seguinte vão ter”, lamentou. Portanto, defendeu cobrança sobre inadimplência da CDHU.

“É inadmissível uma área pública dever algo na ordem de mais de 20 milhões e a Prefeitura não fazer nada!”, protestou. Segundo ela, não é possível reivindicar moradia alheia sem pagar tributos municipais.

Veja a fala da vereadora Fernanda Curti:

Medidas anunciadas pela Câmara

Curti detalhou ações em andamento no Legislativo. Segundo a vereadora, foi protocolada moção de apoio às famílias. Além disso, o mandato trabalha para garantir audiência pública na Câmara Municipal.

“Queremos ouvir as partes, em especial as famílias”, explicou. A parlamentar informou ainda que solicitou, junto à bancada estadual do PT, reunião com a CDHU. Portanto, busca tratar diretamente do caso com a companhia.

Reunião com secretário de Habitação de Guarulhos também está prevista. “Vamos solicitar reunião com o pastor Anistaldo, secretário de Habitação de Guarulhos, para que a gente possa cuidar, para que cada família tenha seu direito respeitado”, anunciou.

A vereadora reafirmou compromisso do mandato com a comunidade. “Vamos lutar até o final para garantir o direito de moradia. E mais do que isso: cobrar da CDHU e do governador Tarcísio que respeitem a cidade de Guarulhos e paguem os seus tributos!”, declarou.

Contexto do caso

Conforme reportagem publicada anteriormente pelo Guarulhos Online, a Comunidade Padre Bento enfrenta ameaça de despejo desde que a CDHU moveu ação de reintegração de posse. Cerca de 90 famílias ocupam terreno que estava abandonado há décadas pela companhia estadual.

Segundo moradores, área serviu durante anos como descarte irregular e refúgio para uso de drogas. A ocupação transformou o local em moradia para centenas de pessoas. Além disso, famílias construíram casas e estabeleceram rotina de trabalho no bairro.

No entanto, projeto de revitalização urbana mencionado por moradores coincide com pedido de reintegração. Portanto, comunidade questiona real interesse público na ação. Famílias aguardam definição judicial enquanto prazo de 60 dias para desocupação se aproxima.

A sessão desta terça-feira marca primeira manifestação pública de moradores na Câmara Municipal. Por consequência, caso ganha visibilidade política e pode influenciar posicionamento de outros parlamentares. Próximos passos incluem audiência pública e reuniões com autoridades estaduais e municipais.


Conexão com a Reportagem Original

Esta matéria é um desdobramento direto da reportagem publicada no Guarulhos Online em 27 de outubro de 2025: “Pessoas Moram em Casas, Não em Parques”: A Luta de 90 Famílias Contra o Despejo na Comunidade Padre Bento, Guarulhos.

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