Concorrentes ainda recorreram aos nomes do presidente Lula e de Jair Bolsonaro para marcar posição
O debate entre os candidatos à Prefeitura de Guarulhos realizado nesta segunda-feira (26) foi marcado por comparações entre gestões municipais, trocas de farpas e menções aos dois principais padrinhos políticos na disputa – o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Participaram o ex-prefeito Elói Pietá (Solidariedade); o deputado estadual Jorge Wilson Xerife do Consumidor (Republicanos); o vereador Lucas Sanches (PL); e o deputado federal Alencar Santana (PT). O debate foi o segundo de uma série promovida pela revista VEJA em parceria com a ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing), o instituto Paraná Pesquisas e o escritório Bonini Guedes Advocacia.
As referências aos padrinhos começaram já na primeira pergunta do debate, de Alencar Santana para Lucas Sanches. O deputado perguntou ao adversário se este tinha orgulho de ser o candidato do bolsonarismo. Sanches respondeu ter “orgulho de ser o candidato a prefeito que é o único que pode vencer o PT” na cidade e afirmou que todos os demais candidatos são “crias” do PT, dizendo que já passaram pelo partido. O vereador então dirigiu-se a Jorge Alencar (sempre chamado de “Xerife”): “Hoje tenta posar aqui próximo do Bolsonaro, mas a gente sabe que foi cria do PT – foi no momento do governo do PT que você virou o Xerife do Consumidor”.
Alencar, na réplica, disse ser o único candidato do PT na cidade e que o presidente Lula já ajudou muito Guarulhos. “E, com certeza, quando a gente estiver na prefeitura, vai fazer muito mais”, afirmou.
Lucas Sanches perguntou na sequência a Wilson o que faria pela rua Diego Souza – que, disse, fica no bairro Cabuçu (região Norte da cidade) e que seria a que está em piores condições do bairro. Wilson disse que é recebido nos bairros e que entregará três hospitais – o Hospital da Mulher; o Hospital Infanto-Juvenil; e três andares do Hospital Municipal Pimentas-Bonsucesso. Na resposta, ele mencionou que Sanches é alvo de denúncias por prática da chamada rachadinha (forma de desvio de verba pública em que funcionários de gabinete de um parlamentar devolvem a este parte do salário), feita por seu ex-chefe de gabinete Caíque Marcatt.
O vereador, na réplica, disse que a rua Diego Souza não existe– o nome é do ex-centroavante do time de futebol carioca Vasco da Gama. Wilson respondeu que conhecia os bairros da cidade, e não cairia nas “pegadinhas” do adversário.
A pergunta seguinte foi de Wilson para Elói Pietá – mas não chegou a formulá-la no tempo regulamentar. Apenas teve tempo de dizer que o governo do adversário durou 16 anos – referindo-se a seus dois mandatos (de 2001 a 2009) e aos oito de Sebastião Almeida (entre 2009 e 2016). Pietá disse que o próprio Wilson foi diretor do Procon na gestão Almeida por seis anos. “Prometeu abrir três hospitais? Você está falando com quem já abriu três hospitais.”
Pietá indagou Santana sobre sua posição sobre as emendas parlamentares (as chamadas emendas Pix e de relator) no Congresso. Alencar disse que a questão está sendo tratada no âmbito dos Três Poderes– e fez menção aos partidos do Centrão (que o petista disse representarem a candidatura do ex-prefeito), com “forte interesse nas emendas”. “Tenho muito orgulho de continuar sendo do PT e de representar a estrela e o projeto do presidente Lula”, afirmou. Santana ainda mencionou o processo contra a vice-candidata do adversário, Fran Corrêa, em caso relacionado a obras do Rodoanel Norte.
O ex-prefeito Pietá disse que Santana chegou a cogitar Corrêa como vice em sua chapa e que a empresa a que ela é ligada ganhou na Justiça a ação relacionada a uma desapropriação pertencente à companhia. “Trata-se de um não-escândalo”, disse Pietá. Santana disse na tréplica que ela continua a ser investigada porque o processo segue em curso.
2º bloco
No segundo bloco, o editor de VEJA José Benedito da Silva perguntou a Jorge Wilson sobre o que a prefeitura pode fazer pela segurança e que papel teria a Guarda Municipal em seu eventual mandato. Wilson disse que a cidade passa hoje por muita “violência política” e mencionou o projeto Muralha GRU (programa da atual gestão, de Gustavo Henric Costa – o Guti, do PSD), que conta com 5 mil câmeras. Disse ainda querer integrar as polícias em parceria com o governador de SP, Tarcisio de Freitas. Finalizou dizendo que Sanches ainda não havia respondido sobre a acusação de rachadinha. No comentário, Lucas Sanches não mencionou a acusação e disse que o candidato adversário mal conhecia a cidade.
Benedito então questionou Santana sobre a preparação de Guarulhos para eventos climáticos extremos, como o que atingiu o Rio Grande do Sul em maio. O deputado disse que o presidente Lula esteve no RS várias vezes – diferentemente de Bolsonaro, que, segundo ele, em tragédias semelhantes, dizia estar em passeio ou em férias. Disse que o governo Lula deu apoio financeiro e em infraestrutura. Afirmou que a Guarulhos obteve acesso, junto ao governo federal, a R$ 76 milhões para regularização fundiária e urbanização em áreas de risco – e para levar o programa Minha Casa, Minha Vida. Ele ainda anunciou a criação de um Observatório do Clima para acompanhar mudanças climáticas.
Pietá lembrou que em suas gestões fez limpeza de córregos, urbanização de cerca de 180 comunidades e que criará, se eleito, uma Secretaria da Defesa Civil, hoje com status de diretoria.
A repórter de VEJA Laísa Dall’Agnol perguntou a Pietá o que faria para que as obras do Hospital da Mulher – que desde 2015 estão paradas, com 70% do projeto já construído – não voltem a parar. O ex-prefeito lembrou das obras de hospitais que já entregou e que atuaria em parceria com os governos estadual e federal.
No comentário, Wilson disse que entregará, em seu primeiro ano de mandato, três hospitais. Pietá respondeu que Wilson, que é “o candidato do prefeito, que nada fez”, apresenta apenas promessas. “É melhor a população apostar em quem já mostrou que faz.”
A mediadora, Marcela Rahal, apresentou então a pergunta feita pela professora da ESPM Rosilene Marcelino (Ciências do Consumo) ao candidato Lucas Sanches sobre medidas para unidades educacionais. Sanches lembrou que hoje mais de 15 mil crianças na cidade estão sem vaga em creches. Ele disse que construirá creches e CEUs e fazer parcerias com creches que já existem. No fim, fez mais críticas a Jorge Wilson, dizendo que o candidato mora na cidade vizinha de Arujá, e não em Guarulhos.
Santana afirmou que educação sempre foi prioridade em gestões do PT – citando as gestões de Luíza Erundina, Marta Suplicy e Fernando Haddad em São Paulo. Sanches disse que o candidato do PT fazia menção ao presidente Lula sem fazer propostas específicas – e afirmou que vai zerar a fila de creches e criará um centro de referência do autismo.
Wilson, que obteve direito de resposta contra Sanches, disse que conhece os bairros e os bons comerciantes da cidade e indagou novamente sobre a sobre o caso da rachadinha.
3º bloco
O terceiro bloco abriu com pergunta de Wilson para Santana sobre carga tributária. O candidato do PT falou de seu histórico no partido e de segurança – dizendo que a atual gestão não implementou o plano para a GCM, e que ele, se eleito, o fará. Wilson apontou que o opositor não respondeu sobre o que pretende fazer com o IPTU – e que ele vai congelar o imposto municipal.
Santana perguntou em seguida a Pietá sobre as denúncias envolvendo a candidata a vice, Fran Corrêa. O ex-prefeito disse que sua gestão foi marcada pela honestidade e que hoje, após 26 anos de carreira política, tem apenas o apartamento em que vive. “Temos que dar exemplo; não só da ação, como da honestidade também”.
Pietá perguntou a Sanches que papel ele atribuiria à GCM, “uma vez que a segurança pública é atribuição principal do Estado”. Sanches disse que terá “pulso firme” contra a criminalidade, e que vai valorizar a Guarda Municipal. “Infelizmente a guarda hoje está sucateada, o salário-base é infinitamente menor que o das cidades vizinhas”, afirmou.
Pietá disse que em suas gestões armou e duplicou a Guarda Municipal, além de investir em formação e organizar o plano de carreira. “No plano nacional, junto ao Congresso, o direito da Guarda Municipal de ser polícia”, disse. Sanches disse que Pietá concedeu apenas 1% de reajuste aos servidores.
4º bloco
No quarto bloco, a repórter de VEJA Isabella Alonso perguntou a Lucas Sanches o que faria pelo transporte público de Guarulhos, lembrando que a tarifa de ônibus da cidade (atualmente em R$ 5,10, no Bilhete Único Comum) está entre as mais caras do Estado. Sanches disse que fará readequação de linhas e auditoria em contratos – e que implantaria a isenção de tarifa aos domingos. No comentário, Santana lembrou que em São Paulo as gestões Marta e Haddad inovaram no transporte público e que faria um aplicativo – o “Busão na Palma da Mão” – para localização de veículos (e ressaltou a relevância do app para fiscalizar o cumprimento de horários). Lucas replicou que faria renovação de frota.
A repórter de VEJA perguntou então a Jorge Wilson o que faria com relação à população de rua – e este respondeu que criaria equipes para atender essa população. “São pessoas que estão ali por vários motivos. Muitas pessoas perderam a vontade de viver, por alguma desilusão, algum amor. Outras são doentes, que precisam ser tratadas com carinho, com cuidado. Eu terei uma equipe especializada, porque quero cuidar de perto”, disse.
No comentário, Pietá disse que Wilson, que é “o candidato da atual gestão”, nada fez de inovador pela população de rua. Ele propôs a criação de um aluguel social – “a oportunidade de cada um ter seu quartinho, financiado pela prefeitura (…) e vamos atuar na área psicológica, da saúde e na oferta de emprego e oportunidade”.
O repórter de VEJA Ramiro Brites perguntou em seguida a Pietá sobre as críticas ao eventual aumento na circulação de caminhões devido ao Rodoanel Norte. O candidato disse que não há diálogo com o governo estadual por falta de iniciativa do atual prefeito. Wilson, no comentário, falou de parceria com o governo estadual: “O metrô vai chegar. A estação da CPTM também vai chegar. Quem representa a direita está aqui, quem tem o apoio do nosso sempre presidente Jair Messias Bolsonaro está aqui. Quem tem o apoio do governador Tarcísio de Freitas está aqui também”. Eloi replicou que não houve sequer projeto que pedisse alteração no Rodoanel, “porque vai dividir bairros pensando justamente numa terceira pista do aeroporto de Guarulhos. Não é possível pensar em terceira pista, porque tudo já está povoado naquela região e não podemos abrir um novo cone de ruido”.
Marcela Rahal fez a pergunta enviada pela professora e coordenadora do curso de Cinema e Audiovisual da ESPM, Gisele Jordão, sobre como Alencar Santana fomentará o setor cultural. Santana disse que o governo federal enviou a Guarulhos em 2023, através da lei Paulo Gustavo R$ 10 milhões – o dobro do previsto no orçamento municipal, segundo ele. “Cultura é prioridade. O governo anterior aboliu o Ministério da Cultural, atacou a cultura, o saber e vetou a lei Paulo Gustavo”, afirmou. Sanches, no comentário, disse que as iniciativas do PT na cultura só funcionaram “para os famosos”.
Considerações finais
No encerramento do debate, Lucas Sanches disse que é o candidato para “enfrentar o sistema” – que, voltou a dizer, é formado por “crias do PT”. “Se você fizer uma comparação, não tem outra possibilidade de mudança para nossa cidade. De um lado, a gente tem candidatos que estão pensando no que é melhor para a vida deles”, disse. “Deixando claro: sou o candidato a prefeito do partido do Bolsonaro. Sou o único candidato que tem chance de impedir a volta do PT.”
Jorge Wilson encerrou sua participação dizendo que está preparado para ser prefeito de Guarulhos, “com todo vigor físico”. “Deus falou comigo, Deus me deu sinalizações importantes de pessoas que eu já pude atender, pude ajudar, há mais de 15 anos. É a oportunidade que nós temos de entregar, no primeiro ano, três hospitais”, disse. Ele ainda afirmou ser o “único candidato que representa a direita”. “Bolsonaro apoia o Xerife. Tarcísio [Freitas] também apoia nossa candidatura.”
Eloi Pietá usou sua fala para dizer que sua candidata a vice, Fran Corrêa, foi injustiçada na questão do processo referente ao Rodonael – “porque o Ministério Público Estadual pediu o arquivamento, e o Tribunal de Justiça do Estado arquivou”. Disse ainda que vai reorganizar o sistema de saúde, que foi “precarizado enormemente na atual gestão”.
Alencar Santana, por fim, disse que iniciou a luta pelo Metrô quando era deputado estadual. “Fico feliz que agora o presidente Lula liberou recurso para que o governador do Estado traga o metrô até a cidade de Guarulhos (…) Meu orgulho também e reafirmo: o único candidato que tem o apoio do presidente Lula, do PT e de partidos que apoiaram o Lula desde o primeiro turno é a candidatura Alencar Santana.”

