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Esporotricose Animais Selvagens: Fungo de Gatos Domésticos É Encontrado em Fauna Silvestre

Agência SP

Um estudo recente, apoiado pela Fapesp e publicado em março na revista Mycopathologia, revelou a presença do fungo causador da esporotricose nos órgãos internos de animais selvagens. A descoberta, realizada em carcaças coletadas em rodovias do Paraná, aponta para a existência de novos reservatórios do patógeno que, usualmente, é transmitido entre gatos domésticos e pode infectar humanos, gerando sérias lesões na pele e no sistema linfático. Consequentemente, a pesquisa levanta preocupações significativas sobre a saúde pública e animal.

Descoberta Inesperada da Esporotricose em Animais Selvagens

As análises identificaram três espécies do gênero Sporothrix, incluindo a Sporothrix brasiliensis, exclusiva do Brasil. Além dela, os pesquisadores detectaram S. globosa e S. schenckii, sendo esta última a mais predominante e encontrada em diversos mamíferos e aves. A presença desses fungos em animais selvagens expande consideravelmente o entendimento sobre a epidemiologia da doença, que até então era mais associada ao ciclo de transmissão doméstico.

Os resultados sugerem que a fauna silvestre pode atuar como um reservatório para esses fungos, que causam lesões severas em animais domésticos e podem contaminar seres humanos. Nesse sentido, Anderson Messias Rodrigues, professor da EPM-Unifesp e coordenador do estudo, explica: “Não foi possível saber se os fungos estavam em sua forma patogênica nos animais silvestres, mas é evidente que estão circulando mais do que imaginávamos, com potencial risco para a saúde humana e animal.”

Embora a histopatologia para confirmar a infecção não tenha sido realizada neste estudo, o DNA do fungo foi detectado em tecidos internos como fígado e coração. Steffanie Skau Amadei, primeira autora do estudo, que realizou seu doutorado na Universidade McGill, no Canadá, salienta: “Conseguimos detectar o DNA do fungo nos tecidos internos, o que é um indício de que ele está circulando no organismo. Além disso, só foram avaliados órgãos anatomicamente íntegros e não expostos ao ambiente, o que poderia ser uma fonte de contaminação.”

Metodologia Inovadora e Implicações para a Saúde Única

As análises foram conduzidas durante o estágio de Amadei no Laboratório de Patógenos Fúngicos Emergentes da EPM-Unifesp, coordenado por Rodrigues. A detecção direta e precisa do material genético foi possível graças a um ensaio molecular, validado anteriormente pelo grupo com apoio da Fapesp, que permite diagnosticar e diferenciar rapidamente as principais espécies emergentes de Sporothrix.

Outro ponto crucial levantado pelo estudo é a maior incidência de Sporothrix em regiões de transição entre áreas nativas, rurais e urbanas, onde o contato entre animais selvagens e domésticos é mais frequente. Rodrigues afirma: “Estamos presenciando a emergência do Sporothrix em novos hospedeiros. O estudo abre uma avenida para novas pesquisas ao mostrar que os reservatórios do fungo estão muito além dos animais domésticos. A pressão humana sobre o ambiente está diluindo as fronteiras do que é rural, urbano e silvestre.”

O trabalho também destaca a análise de animais mortos por atropelamento como uma ferramenta inovadora e econômica de vigilância em saúde, alinhada ao princípio de Saúde Única. Estima-se que 1,3 milhão de animais silvestres morram atropelados diariamente no Brasil, somando mais de 475 milhões por ano. Portanto, a coleta dessas carcaças representa uma oportunidade valiosa para monitorar patógenos emergentes.

Detalhes das Análises e Conclusões Principais

As carcaças foram coletadas nas primeiras horas após o atropelamento em duas importantes rodovias do estado do Paraná, como parte de um projeto de pesquisa sobre o potencial de animais silvestres como sentinelas de zoonoses. Esta iniciativa é liderada pelo Departamento de Medicina Veterinária Preventiva da Universidade Estadual de Londrina (UEL) desde 2016, contando com a participação de pesquisadores da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR) e do Centro Médico Universitário de Utrecht, nos Países Baixos.

Entre 2017 e 2023, foram analisadas 178 amostras de tecidos de coração, fígado, pulmão e bexiga de 81 animais, incluindo 39 mamíferos, 36 aves e seis répteis. Os animais foram encontrados ao longo de cerca de 530 quilômetros da BR-376, que liga Paraná e Santa Catarina e é margeada por áreas de Mata Atlântica, e 150 quilômetros da PR-445, principal ligação entre Londrina e Curitiba, às margens de áreas nativas de Campos Gerais e propriedades rurais.

O DNA de espécies patogênicas de Sporothrix foi detectado em 11 animais, representando as três classes amostradas. Os tecidos que testaram positivo mais frequentemente foram o coração, com seis casos, e o fígado, com cinco, sugerindo uma infecção primária ou que esses animais são reservatórios para o fungo. Isso significa que eles podem carregar o patógeno sem necessariamente desenvolver a doença, mas mantendo o ciclo de circulação da esporotricose em animais selvagens e potencialmente para outros hospedeiros.

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