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EUA impõem tarifas: Indústria sente, mas balança comercial mantém estabilidade

© Tânia Rêgo/Agência Brasil

Os Estados Unidos impuseram novas tarifas sobre produtos brasileiros, com especialistas prevendo um efeito limitado na balança comercial do Brasil. Contudo, setores industriais específicos, como máquinas e calçados, devem sentir o impacto direto das medidas americanas. Em especial, São Paulo e Santa Catarina concentram mais da metade dos prejuízos projetados no cenário nacional.

Setores industriais enfrentam desafios

As novas tarifas americanas, embora afetem apenas 18% das exportações brasileiras para aquele mercado, geram preocupação em segmentos específicos. Especialistas, conforme apurado pela Agência Brasil, indicam que áreas como máquinas, aço, alumínio, calçados e automóveis estão entre as mais vulneráveis. Além disso, a perda de competitividade afeta principalmente empresas que dependem fortemente do mercado estadunidense e têm dificuldade para realocar sua produção para outros destinos.

Balança comercial brasileira resiliente

Apesar do tarifaço, o desempenho agregado da balança comercial brasileira não deve sofrer alterações significativas. Lia Valls, pesquisadora associada do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getulio Vargas e professora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), explica que os Estados Unidos representam atualmente uma fatia menor das exportações nacionais, cerca de 9,4%. Por outro lado, o grande mercado para o Brasil é a Ásia, com a China à frente.

José Augusto de Castro, presidente executivo da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), reforça essa visão. Ele argumenta que o superávit comercial brasileiro deriva predominantemente das commodities, as quais foram em grande parte poupadas das sobretaxas americanas. Isso inclui produtos como soja, suco de laranja e carnes, onde o Brasil compete com os próprios Estados Unidos.

Comércio bilateral em queda

O cenário comercial entre Brasil e Estados Unidos tem apresentado recuo recente. No primeiro semestre de 2026, o volume total de trocas somou US$ 36,4 bilhões, registrando uma queda de 12,8% em comparação com o mesmo período de 2025. As exportações brasileiras para os EUA diminuíram 13%, alcançando US$ 17,4 bilhões, enquanto as importações de produtos americanos caíram 12,5%, totalizando US$ 19 bilhões. Consequentemente, o Brasil encerrou o período com um déficit comercial de US$ 1,5 bilhão.

Especificamente em junho de 2026, as exportações mostraram um crescimento de 3,7%, atingindo US$ 3,47 bilhões. Entretanto, essa alta foi sustentada principalmente pelo aumento de 11% nos preços médios dos produtos, enquanto o volume físico embarcado de fato caiu 6,6%.

Impacto concentrado em São Paulo e Santa Catarina

A relevância das novas barreiras tarifárias é sentida de maneira desigual no território nacional. Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic) revelam que São Paulo e Santa Catarina concentram cerca de 52% do impacto total do tarifaço estadunidense. Essa concentração regional sublinha a vulnerabilidade de polos industriais nessas unidades federativas, incluindo cidades como Guarulhos, que possuem forte presença nos setores mais afetados.

Prejuízo para manufaturados e emprego

Para José Augusto de Castro, o maior dano das tarifas recai sobre a indústria nacional de bens manufaturados. Ele destaca que, apesar de um superávit comercial robusto em geral, o Brasil enfrenta um déficit significativo em produtos com maior valor agregado. Por conseguinte, esse déficit nos manufaturados é preocupante, pois representa o setor que mais gera empregos no país. Ademais, as novas barreiras tendem a criar uma abertura de mercado para concorrentes internacionais, que podem agora ocupar o espaço anteriormente preenchido pelos produtos brasileiros.

Tarifas e motivações políticas

A escalada tarifária por parte dos Estados Unidos parece ter transcendido critérios estritamente econômicos, incorporando argumentos de natureza política. Lia Valls observa que, diferentemente da maioria dos países penalizados, o Brasil mantém um déficit comercial com os Estados Unidos. Contudo, quando a sobretaxa foi elevada para 40%, a justificativa econômica tornou-se frágil.

A economista aponta que temas como decisões do Supremo Tribunal Federal (STF), a regulamentação de plataformas digitais, o sistema Pix e políticas ambientais passaram a ser utilizados como justificativas para a ampliação das sanções comerciais, evidenciando uma dimensão política crescente nas relações bilaterais.

Debate sobre retaliação brasileira

O governo federal avalia a possibilidade de invocar a Lei da Reciprocidade Econômica como resposta às tarifas americanas. No entanto, especialistas demonstram ceticismo quanto à eficácia de tal medida. Lia Valls argumenta que o Brasil não possui capacidade para infligir perdas significativas aos Estados Unidos, o que poderia reverter os efeitos contra a própria economia brasileira. O caminho mais estratégico, segundo a especialista, seria denunciar a medida e levar o caso à Organização Mundial do Comércio (OMC).

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