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Falso médico forja morte e idoso é enterrado no lugar dele em Guarulhos

Fernando Henrique Dardis, o falso médico, foi preso após se entregar

Foto: Reprodução

Na tarde de terça-feira (24), as portas do 1º Distrito Policial de Guarulhos se abriram para receber um homem, um falso médico, que oficialmente estava morto há cinco meses. Fernando Henrique Dardis, de 43 anos, caminhava ao lado de seu advogado em direção ao balcão da delegacia para fazer algo que poucos conseguem: se entregar à polícia depois de forjar a própria morte.

O falso médico que aterrorizou pacientes, enganou a Justiça e transformou um cemitério em palco de uma farsa macabra finalmente decidiu encerrar sua fuga da realidade. Assim, a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo confirmou na quarta-feira (25) que o foragido estava preso e à disposição da Justiça.

A revelação que mudou tudo

Três dias antes, no domingo (22), o programa Fantástico havia exposto ao Brasil inteiro uma das fraudes mais bizarras da história criminal brasileira. O caso do falso médico que “morreu” para escapar de acusações de homicídio ganhou repercussão nacional, transformando Fernando Dardis no criminoso mais procurado do país.

A reportagem revelou detalhes chocantes: enquanto Fernando fingia estar morto, um idoso de 99 anos foi enterrado no lugar dele no Cemitério Municipal Campo Santo, em Guarulhos. Dessa forma, o sistema funerário municipal havia sido manipulado para fazer a troca macabra de identidades.

Simultaneamente, a pressão midiática e o cerco policial se intensificaram. Fernando percebeu que sua farsa havia se tornado conhecimento público e que não havia mais onde se esconder.

O esquema familiar do falso médico por trás da fraude

As investigações revelaram que o falso médico não agiu sozinho. O Hospital Brás Cubas, onde supostamente teria morrido de sepse, pertence à própria família de Fernando. Portanto, a instituição médica familiar serviu como base para a elaboração do atestado de óbito fraudulento.

Além disso, a empresa Med-Tour, também de propriedade da família Dardis, está sendo investigada por possível envolvimento no esquema. A complexidade da operação sugere uma rede de cumplicidade que vai além de uma decisão individual desesperada.

O promotor Antônio Domingues Farto Neto já sinalizou que o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) pode participar das investigações. Consequentemente, o caso pode evoluir para uma investigação de organização criminosa.

O histórico criminal de Fernando Dardis

A trajetória criminosa de Fernando começou muito antes das mortes em Sorocaba. Em 2012, ele foi condenado por portar distintivo falso da Polícia Civil e munições em Guarulhos. O caso ocorreu em 2009, quando ele alegou ter encontrado o material em uma mochila.

Até 2019, Fernando usava o sobrenome Guerreiro. Posteriormente, conseguiu autorização judicial para adotar Dardis, sobrenome herdado do pai biológico. A mudança de identidade, vista retrospectivamente, parece ter sido mais um passo em uma vida construída sobre mentiras.

As vítimas do falso médico que não vão voltar

Entre 2011 e 2012, Fernando atuou como falso médico na Santa Casa de Sorocaba. Durante esse período, Helena Rodrigues e Therezinha Monticelli Calvim morreram após receberem prescrições inadequadas e atendimento negligente. Assim, duas famílias perderam entes queridos nas mãos de um impostor.

Fernando responde por homicídio doloso eventual, quando se assume o risco de matar. Porém, ainda não foi julgado pelos crimes, já que conseguiu adiar o processo através da morte forjada.

O vídeo da “ressurreição” do falso médico

No domingo, através de sua defesa, Fernando divulgou um vídeo onde admitia estar vivo. “Venho a público esclarecer que estou vivo, que agi sozinho em um momento de desespero”, declarou na gravação. Simultaneamente, tentou se defender das acusações: “Lembrando que a dona Helena foi atendida por mim, foi internada, passou por mais três médicos e veio a óbito.”

O vídeo, gravado em local não identificado, mostrava um homem visivelmente abatido tentando justificar ações injustificáveis. Contudo, suas palavras soaram mais como confissão de culpa do que defesa.

A troca macabra no cemitério de Guarulhos

Imagem: Reprodução/TV Globo

Enquanto Fernando executava sua farsa, o verdadeiro Elias, de 99 anos, morria em janeiro de 2025. O idoso, que viveu quase um século inteiro, jamais imaginou que sua morte se tornaria peça central de uma fraude criminosa.

Os registros do Serviço Funerário Municipal de Guarulhos foram alterados para fazer a troca. O nome de Fernando desapareceu do sistema, substituído pelo de Elias. Por consequência, uma família enlutada descobriu que o túmulo de seu ente querido estava registrado com identidade falsa.

A Prefeitura de Guarulhos confirmou a manipulação dos registros, mas manteve discrição sobre os detalhes. “Por questões éticas e por decisão da própria família, não divulgará a identidade”, informou em nota oficial.

A prisão inevitável

A prisão preventiva de Fernando aconteceu em maio pelo Ministério Público, após a descoberta da fraude. Seu advogado, Luiz Antonio Nunes, havia declarado que a prisão era “injusta e desproporcional” e orientava o cliente a se entregar.

Finalmente, na terça-feira (24), Fernando seguiu o conselho de sua defesa. Acompanhado do advogado, apresentou-se no 1º DP de Guarulhos, onde foi preso. A Polícia Civil informou que ele “permanecerá à disposição da Justiça” enquanto as “diligências prosseguem visando o devido esclarecimento dos fatos.”

Investigações em andamento

O Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp) informou que irá apurar o caso do falso médico. Simultaneamente, as autoridades investigam como Fernando conseguiu atuar em hospitais sem formação médica adequada.

A empresa Med-Tour divulgou nota negando envolvimento em irregularidades. Porém, o fato de pertencer à família de Fernando mantém a instituição sob suspeita das autoridades.

O fim da farsa, o início da justiça

Atualmente, Fernando Henrique Dardis está preso em Guarulhos, oficialmente vivo e respondendo por crimes que incluem homicídio doloso eventual e fraude documental. A morte que ele forjou para escapar da Justiça se tornou mais uma acusação em seu prontuário.

No Cemitério Municipal Campo Santo, uma lápide corrigida marca o verdadeiro descanso de Elias, o idoso de 99 anos que se tornou vítima póstuma de uma farsa criminosa. Sua família, além de lidar com o luto, teve que enfrentar a descoberta de que seu ente querido foi usado como peça de um esquema fraudulento.

O caso revelado pelo Fantástico expôs não apenas a audácia criminosa de um falso médico, mas também as falhas sistêmicas que permitiram tamanho absurdo. Enquanto Fernando aguarda julgamento, as famílias de Helena, Therezinha e Elias continuam lidando com as consequências de suas ações.

A história que começou com mortes evitáveis em Sorocaba, passou por uma morte forjada em Guarulhos e terminou com uma prisão real na mesma cidade, serve como lembrete de que a Justiça, mesmo quando atrasada, eventualmente encontra seu caminho.

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