Um grupo internacional de pesquisadores recentemente alertou a Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre a necessidade de focar na propagação de fungos patogênicos resistentes a medicamentos. Eles propõem a inclusão de medidas robustas no próximo Plano de Ação Global sobre Resistência Antimicrobiana, documento previsto para ser divulgado ainda neste ano e que atualizará as diretrizes de 2015. Esta iniciativa, destacada em um artigo na revista Nature Medicine, visa combater o crescente número de mortes causadas por infecções fúngicas graves em todo o mundo.
Ameaça Crescente e Proposta de Ação Imediata
O estudo, publicado em abril, detalha como a resistência antifúngica está se expandindo entre patógenos humanos, comprometendo a eficácia das terapias de primeira linha e, consequentemente, elevando as taxas de mortalidade. Entre os autores do artigo estão três renomados pesquisadores brasileiros, que contribuem significativamente para a discussão global sobre o tema. Arnaldo Lopes Colombo, médico infectologista e professor da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-Unifesp), enfatizou a urgência da situação à Agência Fapesp.
Para mitigar a emergência e disseminação de patógenos resistentes a antifúngicos, Colombo, que também coordena o Instituto Paulista de Resistência aos Antimicrobianos (ARIES), sugere a criação de uma força-tarefa imediata. Este grupo deveria reunir especialistas em micologia, líderes de saúde pública e animal, cientistas ambientais e formuladores de políticas. Dessa forma, ações colaborativas poderiam ser estabelecidas com maior eficiência. Outros coautores brasileiros incluem Amanda Ribeiro dos Santos, pós-doutoranda na Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (FCF-USP), e Flavio Queiroz-Telles, pesquisador da Universidade Federal do Paraná (UFPR).
O Perigo Negligenciado dos Microrganismos Multirresistentes
A resistência antimicrobiana se manifesta quando surgem linhagens de patógenos que não respondem aos medicamentos disponíveis. Fungos e bactérias multirresistentes, contudo, afetam principalmente crianças, idosos e pacientes em terapia intensiva, além de indivíduos com sistema imunológico comprometido. Embora esses microrganismos sejam frequentemente transmitidos em ambientes hospitalares, já foram identificados em sistemas aquáticos e em animais domésticos e selvagens, ampliando o espectro de contaminação.
Historicamente, a pesquisa científica e a indústria farmacêutica concentraram grande parte dos seus esforços nas bactérias multirresistentes. No entanto, os autores do artigo ressaltam o perigo das infecções fúngicas resistentes a antimicrobianos, destacando a atual carência de opções terapêuticas eficazes. A pandemia de COVID-19, por exemplo, evidenciou a gravidade dessa ameaça, com infecções fúngicas aumentando significativamente as mortes de pacientes em estado grave internados em UTIs.
Desafios na Inovação e a Abordagem Saúde Única
O desenvolvimento de novos antifúngicos enfrenta dificuldades intrínsecas, visto que os fungos são organismos eucariontes, assim como as células humanas, e compartilham vias essenciais de sinalização celular. Isso restringe a criação de drogas seletivas para os fungos, aumentando a toxicidade dos medicamentos existentes e as possíveis interações com outras terapias. Por conseguinte, a inovação no campo tem sido lenta e desafiadora.
Em vista disso, os pesquisadores reforçam que a resistência antifúngica tem sido negligenciada nas estratégias globais e nacionais de saúde. Sugerem, portanto, a inclusão urgente de ações para mitigar essa resistência no Plano de Ação Global, que passará por revisão completa em 2026. Uma abordagem holística de ‘Saúde Única’ (One Health) é considerada crucial, envolvendo atores da saúde humana, animal e ambiental, reconhecendo a interconexão desses ecossistemas.
Ademais, os cientistas enfatizam que fungos patogênicos encontram seu hábitat natural no ambiente, onde a resistência a antifúngicos de uso clínico pode ser induzida pela exposição a fungicidas com estrutura molecular e modo de ação similares. Segundo Colombo, o uso indiscriminado de fungicidas na agricultura, indústria e medicina veterinária contribui significativamente para a resistência, o que pode acarretar tanto o incremento de mortes por infecções fúngicas intratáveis quanto o comprometimento da segurança alimentar global.


