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Hospital veterinário em Guarulhos: polêmicas marcam fim do gratuito e promessa de novo

polêmicas envolvem fechamento do hospital animal de guarulhos e abertura de hospital veterinário

Foto: Divulgação

A Prefeitura de Guarulhos encerrou em julho de 2025 o atendimento gratuito nos dois hospitais veterinários públicos criados há apenas sete meses, durante a gestão Guti (PSD). O prefeito Lucas Sanches (PL) justificou a decisão por alegadas irregularidades contratuais e prometeu novos hospitais veterinários 24 horas, porém sem cronograma definido. Assim sendo, a medida gerou forte reação popular e deixou milhares de animais desassistidos, obrigando tutores de baixa renda a buscar atendimento particular ou aguardar indefinidamente pelos novos serviços prometidos.

O Hospital Animal de Guarulhos (HAG) viveu uma trajetória conturbada desde sua criação até o fechamento. Criado em dezembro de 2024 como resultado de uma reivindicação histórica dos protetores de animais, o projeto funcionou por apenas sete meses antes de ser descontinuado pela nova gestão municipal.

Hospital veterinário gratuito funcionou apenas sete meses

A inauguração do HAG Centro aconteceu em 8 de dezembro de 2024, no aniversário de 464 anos de Guarulhos, localizado na Rua Luiz Gama, 217. Posteriormente, o HAG Pimentas começou a funcionar em 23 de dezembro, na Avenida Jurema, 594, Parque Jurema. Ambas as unidades ofereciam gratuitamente consultas clínicas especializadas, exames de imagem, cirurgias gerais e atendimentos de emergência.

A capacidade de atendimento era significativa: o hospital veterinário Centro podia realizar até 300 atendimentos diários, embora na prática distribuísse apenas 25 senhas diárias, gerando filas extensas desde as primeiras horas da manhã. Tutores chegavam cedo com seus pets para garantir atendimento no hospital veterinário gratuito, evidenciando a demanda reprimida por serviços veterinários acessíveis na cidade.

Contrato de R$ 44,8 milhões rescindido por irregularidades

Foto: Nícollas Ornelas/PMG

A Prefeitura de Guarulhos havia firmado termo de colaboração com a Sociedade Paulista de Medicina Veterinária (SPMV) para operacionalização dos hospitais, com vigência de cinco anos e valor total de R$ 44,8 milhões. Portanto, o investimento anual era de R$ 8,9 milhões, sendo R$ 3,083 milhões para o HAG Centro e R$ 5,887 milhões para o HAG Pimentas.

O contrato firmado com a SPMV aconteceu na gestão anterior, período em que a Prefeitura de Guarulhos aponta que as irregularidades hoje investigadas pelo Ministério Público supostamente ocorreram. Entretanto, problemas operacionais (ou seja, responsabilidade do executivo atual) começaram a aparecer já em maio de 2025, com atrasos nos repasses, valores insuficientes para cobrir os custos contratados e gradual redução dos serviços oferecidos.

Em junho, por exemplo, a unidade Centro suspendeu cirurgias eletivas devido aos atrasos nos pagamentos, sinalizando o colapso iminente do sistema do hospital veterinário gratuito em Guarulhos.

Prefeitura não esclarece cronograma dos novos hospitais veterinários

Na sexta-feira, 11 de julho, a Prefeitura de Guarulhos recebeu um questionário sobre informações básicas referentes ao fechamento do hospital veterinário e os novos projetos anunciados. A gestão Lucas Sanches foi procurada pelo Guarulhos Online para esclarecer questões fundamentais, mas não respondeu aos questionamentos enviados.

Entre as perguntas sem resposta estão:

Sem dúvida, a ausência de respostas gera ainda mais questionamentos sobre a descontinuidade desse serviço essencial para a população. Mais ainda: a falta de transparência gera desconfiança sobre a real capacidade de entrega dos novos hospitais prometidos.

Hospital veterinário 24h prometido sem cronograma definido

Diante da repercussão negativa do fechamento, o prefeito Lucas Sanches anunciou a criação de dois novos hospitais veterinários com funcionamento 24 horas por dia, sete dias por semana. A promessa incluiu atendimento gratuito, serviços de emergência, internação e cirurgia, porém sem informações sobre localização das unidades, cronograma de inauguração ou responsável pela gestão.

“Por que a gente tomou essa decisão? O Ministério Público pediu para apurarmos possíveis irregularidades na contratação dessas clínicas que existem e a nossa Corregedoria apontou diversas irregularidades”, declarou Lucas Sanches em vídeo publicado no Instagram.

Contudo, especialistas estimam que o processo de contratação e implantação dos novos hospitais deve levar entre 60 a 90 dias, com retomada do atendimento gratuito prevista para outubro-novembro de 2025. Portanto, a cidade ficará sem hospital veterinário gratuito por pelo menos três meses, evidenciando falha no planejamento da transição.

SPMV enfrenta investigações em múltiplos estados por alegadas irregularidades

A Sociedade Paulista de Medicina Veterinária (SPMV), parceira responsável pela operação dos hospitais veterinários em Guarulhos, está sendo investigada por supostas irregularidades em diversos estados brasileiros. Fundada em 1929 e presidida por Wilson Grassi Júnior desde 2019, a organização sem fins lucrativos tem sede no Tatuapé, em São Paulo, e responde atualmente a múltiplas denúncias relacionadas ao suposto uso de documentos falsos em processos licitatórios.

Processos Ativos por Estado

EstadoCidadeÓrgão ResponsávelAlegação PrincipalStatus
ParaíbaJoão PessoaMP-PBUso de documento falso em licitaçãoAtivo (jan/2025)
Rio Grande do NorteNatalMP-RNUso irregular de recursos do SUSAtivo (dez/2024)
São PauloFerraz de VasconcelosTJ-SPDocumentos falsos em licitaçãoContrato anulado
São PauloMogi das CruzesPrefeituraSolicitar esclarecimentosAguardando resposta
São PauloGuarulhosMP-SPIrregularidades na gestão anteriorEm investigação
São PauloTaubatéMP-SPDirecionamento de licitaçãoAtivo (mar/2024)
MaranhãoSão LuísTCE-MAIrregularidades em chamamentoAtivo (2024)

Padrão de supostas irregularidades

As investigações em curso apontam para um possível modus operandi consistente da SPMV, que incluiria a apresentação de atestados de capacidade técnica supostamente emitidos pela ANCLIVEPA (Associação Nacional de Clínicos Veterinários de Pequenos Animais), posteriormente questionados pela própria entidade. Também constam nas denúncias certidões com informações contestadas e balanços financeiros rejeitados em outras licitações. Você pode verificar aqui essa documentação.

Estrutura organizacional

A SPMV é presidida por Wilson Grassi Júnior desde 2019, com mandato até 2029. A organização mantém vínculos empresariais com outras entidades do setor veterinário, incluindo a Televet Serviços Veterinários (área de telemedicina) e conexões com representantes da ANCLIVEPA – a mesma organização que questiona a SPMV por suposto uso de documentos falsos. Essas relações comerciais estão sendo analisadas dentro do contexto das investigações em curso.

O caso de Ferraz de Vasconcelos representa um precedente significativo, sendo a primeira cidade onde a Justiça anulou o contrato com a SPMV devido às irregularidades documentais alegadas. Enquanto isso, outros municípios aguardam esclarecimentos ou mantêm investigações ativas, criando um cenário de incerteza jurídica para a organização, que nega as acusações e defende a legalidade de seus procedimentos.

Mobilização popular pressiona por continuidade dos serviços

O fechamento do hospital veterinário gratuito gerou forte reação popular, incluindo manifestações nas redes sociais e mobilização de tutores de animais. O ex-prefeito Guti, em cuja gestão o contrato questionável foi firmado, agora lançou abaixo-assinado (que pode ser acessado clicando aqui) para pressionar a prefeitura a manter os serviços gratuitos até que as novas unidades estejam funcionando.

“Com o encerramento das atividades do HAG antes da abertura de uma nova unidade, milhares de animais ficarão desassistidos. Precisamos da sua ajuda!”, declarou Guti em sua campanha. Contudo, é importante lembrar que as supostas irregularidades investigadas pelo Ministério Público (apontadas pela atual gestão) ocorreram justamente durante sua administração, quando o contrato com a SPMV foi estabelecido.

O vereador Geleia Protetor, principal articulador da criação dos hospitais veterinários, também mobilizou a população através de petições online, cobrando responsabilidade de ambas as gestões municipais.

Medidas paliativas não substituem hospital veterinário completo

Como medida temporária, a Prefeitura implementou o funcionamento de um Castramóvel na Praça Getúlio Vargas, funcionando de segunda a sexta-feira em horário comercial. Paralelamente, manteve campanhas de castração gratuita através do Departamento de Proteção Animal (DPAN), com abertura regular de vagas para o procedimento.

Contudo, essas iniciativas não suprem os serviços oferecidos pelos hospitais veterinários, que realizavam atendimentos clínicos especializados, cirurgias complexas, exames de imagem e internações. Protetores de animais consideram as medidas insuficientes para atender a demanda represada na cidade por hospital veterinário gratuito em Guarulhos.

Continuidade dos serviços vira questão política

Após o fechamento do atendimento gratuito, as unidades passaram a oferecer serviços a “preços populares” (R$ 26,00) através da Faculdade Anclivepa, descaracterizando completamente o caráter de hospital público veterinário. A mudança obrigou tutores de baixa renda a buscar alternativas ou aguardar indefinidamente pelos novos serviços prometidos.

Mesmo assim, no entanto, a Prefeitura não viu com bons olhos a iniciativa dos profissionais e enviou uma fiscalização que fechou as unidades. Então, os funcionários do Hospital Animal de Guarulhos começaram a atender na calçada. Leia o depoimento:

Funcionário faz desabafo sobre fechamento do Hospital Veterinário Gratuito — Foto: Reprodução

Até ontem, o atendimento era gratuito porque havia um contrato com a Prefeitura. A Prefeitura concordou em encerrar o contrato porque os custos não cobriam e porque eles têm outros interesses que cabe a eles [Prefeitura] explicarem, né? Nós aceitamos encerrar o contrato e a partir de hoje nós passamos a cobrar R$ 26 pra atender um cachorro. Porque as pessoas que trabalham aqui precisam receber salário.

A gente tem mais de 70 funcionários, tem aluguel. Passamos a cobrar R$ 26. O que que a Prefeitura fez? O que o Lucas Sanches fez? Mandou a fiscalização aqui e vir fechar o nosso prédio por causa de documentos que a gente tem! Detalhe: eram documentos bons durante sete meses, agora o documento não é mais bom. E agora estão impedindo as pessoas de entrar com os cachorros doentes pra serem atendidos. Então, o que nós estamos fazendo? Nós estamos fazendo as consultas na calçada, porque ele [o prefeito] não vai impedir a gente de trabalhar.

O caso ganhou repercussão negativa na grande imprensa, incluindo destaque na Rede Globo, expondo o impacto da medida na população. Usuários dos serviços relataram dificuldades financeiras para custear tratamentos particulares e a importância do hospital veterinário gratuito para famílias de baixa renda.

Investigações do Ministério Público seguem em andamento

O Ministério Público mantém investigações sobre possíveis irregularidades relacionadas aos contratos dos hospitais veterinários. A gestão Lucas Sanches informou que as suspeitas envolvem a gestão anterior, porém se recusa a detalhar especificamente quais irregularidades foram constatadas.

A SPMV justificou o fim do atendimento gratuito alegando o rompimento “amigável” do contrato devido à inviabilidade financeira dos termos estabelecidos. Segundo a organização, os atrasos nos repasses e valores insuficientes impossibilitaram a manutenção dos serviços no hospital veterinário de Guarulhos.

Impacto social evidencia necessidade de hospitais veterinários públicos

O caso dos hospitais veterinários de Guarulhos evidencia a importância de serviços públicos de saúde animal para a população de baixa renda. A mobilização popular e a pressão do terceiro setor demonstram que o hospital veterinário gratuito é essencial para os cidadãos.

Há uma demanda partidária, mas também da população guarulhense:

Entidades ligadas à proteção animal criticaram duramente a medida, cobrando responsabilidade da atual gestão. Para elas, o mínimo que a prefeitura deveria fazer seria manter os hospitais veterinários funcionando até que os novos estivessem operacionais, garantindo a continuidade do atendimento.

Enquanto isso, a população aguarda definições concretas sobre os novos hospitais veterinários prometidos, com cronograma claro e informações detalhadas sobre funcionamento e localização das futuras unidades. A pergunta que permanece é: por que a atual gestão não consegue fornecer essas informações básicas sobre um serviço tão importante para a cidade?


A reportagem será atualizada assim que a Prefeitura responder aos questionamentos enviados.

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