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Juliana Marins: o sonho interrompido no vulcão Rinjani

juliana marins, jovem de 26 anos caiu em trilha na indonésia no monte rinjani

Juliana Marins. Há momentos em que a vida te pega pelo pescoço e sussurra no ouvido: “Agora”. 26 anos, publicitária de Niterói, ouviu esse sussurro em fevereiro de 2025. Não era uma voz romântica pedindo para ela largar tudo e seguir um amor impossível. Era algo mais visceral, mais urgente. Em outras palavras, era a vida dizendo: “Se você não fizer isso agora, talvez nunca mais tenha coragem”.

Então ela fez. Pegou suas economias, uma mochila e um sonho meio clichê, meio revolucionário: conhecer o mundo sozinha. Quatro meses pela Ásia. Filipinas, Vietnã, Tailândia, Indonésia. Instagram cheio de fotos de templos, praias, sorrisos largos. O Vietnã virou seu lugar preferido. Na Tailândia, descobriu algo sobre seu “propósito” – essa palavra que a gente usa quando ainda não sabe nomear o que sente, mas sabe que é importante.

Ela meditou com monges. Fez cursos de mergulho. Passou cinco dias num retiro de yoga. Explorou cidades sozinha com aquela liberdade meio assustadora, meio deliciosa que só quem já viajou desacompanhado conhece. Era como se estivesse se conhecendo pela primeira vez, longe dos rótulos, das expectativas, dos “você deveria” que nos perseguem no Brasil.

O chamado da montanha: Monte Rinjani e o destino que ninguém queria

Em 20 de junho, Juliana decidiu subir o Monte Rinjani. Segundo vulcão mais alto da Indonésia, 3.726 metros de altitude cortando o céu de Lombok como uma cicatriz sagrada. Ela pagou 2,5 milhões de rúpias – uns 830 reais, o preço de um sonho empacotado em três dias de trilha.

Fotos: Juliana Marins/Instagram

O grupo era pequeno: Juliana, mais cinco turistas, e Ali Musthofa, guia de 20 anos que conhecia aquela montanha como conhecemos o caminho de casa. Ou achava que conhecia.

Às 4h da madrugada de 21 de junho – ainda era noite de 20 de junho aqui no Brasil, onde a gente ainda dormia sem saber que uma das nossas estava prestes a precisar de nós – Juliana pediu para descansar. Cansaço. Aquele cansaço que não é só do corpo, talvez. Às vezes a alma também se cansa de subir.

Foi aí que tudo desmoronou.

Ali disse que ficou “três minutos” à frente, esperando. A família descobriu depois, através de funcionários do parque, que ela ficou sozinha por mais de uma hora. Três minutos ou uma hora – o tempo vira elástico quando você está caindo 300 metros montanha abaixo, sozinha, no escuro, sentindo cada pedra, cada galho, cada segundo da queda como uma eternidade.

Quando o Brasil inteiro conheceu Juliana Marins

Às 22h do dia 20 de junho, horário de Brasília, a família de Juliana recebeu a notificação pelo Instagram. Mariana, a irmã, reconheceu Juliana pelas roupas, pelo rosto machucado nas imagens que turistas espanhóis conseguiram capturar com um drone. Era ela. Nossa menina estava lá embaixo, perdida numa montanha do outro lado do mundo.

A família criou o perfil @resgatejulianamarins no dia 22. Em questão de horas, 1,2 milhão de pessoas estavam seguindo, rezando, torcendo, chorando junto. Celebridades fazendo vídeos desesperados pedindo para os famosos divulgarem.

O Brasil inteiro parou. The New York Times, The Sun, Daily Mail, BBC – o mundo estava assistindo o Brasil tentar mover uma montanha com hashtags e orações.

E aí apareceram os heróis improváveis. Agam Rinjani (Abd Harris Agam), alpinista profissional de 27 anos, especialista em resgate vertical. Tyo Survival (Herna Hadi Prasetyo), expert em répteis e abrigos de emergência. Dois indonésios que viram a comoção nas redes sociais e pensaram: “Vamos lá?”

Eles documentaram tudo em lives no Instagram. Milhares de brasileiros assistindo, em tempo real, dois desconhecidos arriscando a vida para salvar uma das nossas. Agam chegou a 1 milhão de seguidores. Viramos uma só família angustiada, grudada na tela dos celulares, assistindo a um reality show do qual ninguém queria participar.

Juliana Marins: os quatro dias

Sábado, 21 de junho: Primeiro dia de busca. Mau tempo, baixa visibilidade. Juliana foi vista pela última vez às 17h10 através de um drone. Ainda estava viva. Ainda havia esperança.

Domingo, 22 de junho: Buscas suspensas por causa da neblina. O Itamaraty se pronunciou às 19h04. Palavras bonitas, protocolos diplomáticos, mas Juliana continuava lá embaixo.

Segunda-feira, 23 de junho: Drone térmico a localizou. Aparentemente imóvel, 400 a 500 metros abaixo do ponto da queda inicial. Ela havia “escorregado” ainda mais montanha abaixo. Às 16h, buscas interrompidas novamente.

Foto: Agam Rinjani/Instagram

Durante esses dias, a gente viveu uma angústia coletiva que eu nunca tinha visto antes. Era como se todo brasileiro tivesse uma irmã, uma filha, uma amiga perdida naquela montanha. A internet virou uma reza só. Um grito só. Uma família só.

A noite mais longa: heróis na escuridão

Terça-feira, 24 de junho, 8h da manhã no Brasil. Agam e Tyo finalmente chegaram até Juliana. Mas era tarde. Ela já havia partido.

Os dois passaram a noite inteira ao lado do corpo dela, na beira de um penhasco de 590 metros. “Instalamos uma âncora para não deslizarmos mais 300 metros”, relatou Agam. “Se chovesse um pouco mais, morreríamos junto. Podíamos cair a qualquer momento.”

Imaginem a cena: dois homens que nem conheciam Juliana, velando o corpo dela a noite inteira, na beira do abismo, para que ela não desaparecesse ainda mais montanha abaixo. Para que a família pudesse, pelo menos, enterrar o que restou do sonho dela.

Essa é a humanidade que ainda existe no mundo. Dois desconhecidos arriscando a própria vida para que uma mãe brasileira pudesse abraçar sua filha mais uma vez, mesmo que fosse para se despedir.

O frio que mata: uma coluna de Luís Megale

Após a tragédia, no Brasil, o jornalista Luís Megale falava no BandNews FM sobre o frio de São Paulo. Cinco graus na noite do dia 24, três ou quatro graus no dia 25. Por isso, ele se lembrou de uma coluna antiga que havia escrito sobre como é morrer de frio.

Eu não consegui não pensar na Juliana quando ouvi aquilo.

Karina Oliani, durante entrevista à CNN Brasil falou que: “Mais ou menos, a 3700 (metros de altitude no Monte Rinjani), certamente ela [Juliana] enfrentou temperaturas abaixo de zero na noite. Durante os dias, ela pode ter enfrentado temperaturas entre 5, 8ºC, que é muito frio para uma pessoa que está de camiseta (…) e sem dúvida, ela sofreu de hipotermia”.

Não consegui não imaginar ela lá, sozinha, perdida, com a temperatura do corpo despencando grau a grau numa dança macabra rumo ao fim.

Megale explicou:

“Nosso corpo funciona a 36, 37 graus. Quando chega a 35, começamos a tremer – é o cérebro mandando o corpo se mexer desesperadamente para gerar calor. Aos 33 graus, você não lembra mais quem é. Amnésia. Confusão mental. Aos 28 graus, você está quase perdendo a consciência. Não sente mais as extremidades – primeiro os dedos, depois as mãos, depois os pés.”

“Aos 21 graus, dificilmente você vai sobreviver”, disse Megale. “A morte é uma questão de tempo, o coração já está à beira da falência completa.”

Eu fico imaginando Juliana lá, sozinha, sentindo o frio da montanha entrando pelos ossos, pelos poros, pela alma. Então, será que ela lembrou do calor do Rio? Que pensou na família? Será que, nos últimos momentos de lucidez, antes da amnésia chegar, ela pensou: “Pelo menos eu tentei viver”?

Não é a toa que sobra indignação no Brasil inteiro pela negligência dos atores públicos da Indonésia. Eles tiveram tempo de sobra e preferiram dar as costas para Juliana. Você vai ver, porém, a matéria do Fantástico mais abaixo e entender o quanto foram irresponsáveis. O quanto deixaram Juliana para trás.

O efeito Juliana Marins: o luto somado ao peso do “e se”

Quarta-feira, 25 de junho. Após mais de 7 horas de operação, o corpo de Juliana foi finalmente içado. Mas junto com ele, subiu também uma pergunta que doía na garganta do Brasil inteiro: e se tivessem agido mais rápido?

Fervilhavam ideias que pareciam óbvias demais para não terem sido tentadas. Drones carregando mantimentos, cobertores térmicos, suprimentos médicos básicos. Equipamentos de aquecimento portáteis. Helicópteros militares. “Por que ninguém pensou nisso?”, gritavam mais que comentários; corações. “Ela ficou quatro dias lá, quatro dias!”, repetiam as pessoas, como se a repetição pudesse mudar alguma coisa. Aliás, era o desejo de todo brasileiro: que algo fosse feito e logo!

O nosso presidente lamentou. Vários famosos se pronunciaram. Mas por trás das manifestações oficiais, havia uma sensação coletiva de que algo havia falhado sistemicamente.

Alexandre Pato se ofereceu para custear integralmente o traslado do corpo. “Quero pagar esse valor para que todos tenham paz e para que ela possa descansar ao lado da família.” No entanto, o prefeito de Niterói (RJ), Rodrigo Neves confirmou que a prefeitura de Niterói, no Rio de Janeiro, vai pagar o translado do corpo de Juliana Marins. Ele afirma que a família já está ciente. “Hoje mais cedo conversei com Mariana, irmã de Juliana Marins, e assumimos o compromisso”.

O perfil pessoal de Juliana no Instagram ganhou mais de 300 mil seguidores após a morte. O psicólogo Alexander Bez explicou: é “uma forma simbólica de se manter próximo, de criar uma conexão com a pessoa que se foi.” Era como se seguir o perfil dela fosse um pedido de desculpas coletivo: desculpa por não termos conseguido te salvar.

Um clamor por justiça

E então veio a cereja podre no bolo dessa tragédia: a BBC Indonésia exibiu imagens do corpo de Juliana em suas redes sociais. Teve que apagar depois das críticas e pedir desculpas públicas: “Removemos o vídeo anterior… Pedimos desculpas.” Nem na morte ela teve paz.

A família teve que alertar sobre perfis falsos pedindo doações. Como se a dor não bastasse, ainda tinham que se defender de golpistas explorando a tragédia. Mas uma coisa ficou clara na declaração da família: “Agora nós vamos atrás de justiça por ela, porque é o que ela merece!”

Foto: Redes Sociais

Quando nem a morte encerra as perguntas

Mas se vocês acham que a tragédia acabou quando encontraram Juliana, se enganam. A morte, às vezes, é só o começo de outra dor. Em 27 de junho, o médico legista Ida Bagus Alit achou de bom tom dar uma coletiva de imprensa em Bali. Câmeras, microfones, holofotes. Ele queria seus quinze minutos de fama falando sobre como nossa menina morreu. Hemorragia interna. Fraturas ósseas. Traumas por contusão. “Menos de 20 minutos depois do início da hemorragia”, disse ele, como se fosse uma estatística qualquer. E descartou a hipotermia. Claro que descartou. Mariana soube de tudo assim: pela mídia. “Tudo o que eu sei, vi pela mídia. Em momento algum houve compaixão ou respeito suficiente para nos reunir e informar primeiro”, desabafou ela.

O pai dela estava em Bali, acompanhando os trâmites, e nem ele foi avisado. Soube pelos portais de notícia, igual a gente. “É absurdo atrás de absurdo, atrás de absurdo e não acaba mais”, disse Mariana. E tinha razão, com toda a certeza. Porque qual é a dificuldade de telefonar para a família antes de virar espetáculo na televisão? Que mundo é esse onde um legista precisa de aplausos para fazer seu trabalho? Primeiro de julho.

De volta pra casa

Aeroporto de Guarulhos, 17h15. Finalmente, o avião da Emirates pousou carregando o que restou do sonho de Juliana. “Estamos com uma sensação de alívio, de que conseguimos trazer nossa filha de volta”, disse Manoel, o pai. Alívio. Palavra estranha para quem acabou de receber uma filha sem vida. Mas era isso: pelo menos ela estava voltando para casa. Por conseguinte, a FAB fez o translado até o Galeão. Juliana pousou no Rio às 19h40, onde a família a esperava.

Mas mesmo ali, naquele momento que deveria ser de alguma paz ainda havia mais perguntas que respostas. Por isso, a Defensoria Pública — a pedido da família — tinha pedido nova autópsia. E a AGU tinha concordado. Porque eles precisavam saber. Data e horário exatos da morte. Se houve omissão de socorro… negligência. Se o hospital de Bali tinha recursos suficientes para fazer uma autópsia decente. “Precisamos saber se a necropsia que ele fez foi bem-feita. Me pareceu que o hospital não dispõe de tantos recursos assim”, disse Manoel Marins.

Sete dias para o laudo preliminar. Sete dias para talvez – talvez – terem algumas respostas. Porque quando você perde uma filha do outro lado do mundo, quando ela morre sozinha numa montanha que você nem sabe pronunciar o nome, quando você fica sabendo dos detalhes da morte dela pela televisão, você precisa de respostas. Não importa se elas vão doer. Você precisa saber. E enquanto a família esperava essas respostas, algo aconteceu em Brasília.

Lei Juliana Marins

Em 2 de julho, a Comissão de Relações Exteriores da Câmara aprovou o que virou conhecido como “Lei Juliana Marins”. Um projeto de 2015 que estava parado há dez anos e que, de repente, ganhou urgência. A lei determina que o governo federal vai arcar com os custos de translado de corpos de brasileiros mortos no exterior quando as famílias não tiverem condição financeira. Parece óbvio, né? Mas não era. Não era até Juliana morrer e o Brasil inteiro se mobilizar para pagar a passagem dela de volta para casa. “É preciso dar tratamento digno aos familiares que sofrem em episódios tão trágicos”, disse o deputado Filipe Barros. Digno. Outra palavra estranha nessa história onde a dignidade pareceu ser opcional.

A irmã que tentou mover montanhas

Mariana Marins escreveu uma carta de despedida que quebrou o coração do Brasil: “A gente sempre dizia que moveria montanhas uma pela outra e, daqui do Brasil, tentei mover uma lá na Indonésia por você. Desculpa não ter sido suficiente, irmã.”

Ela lembrou da personalidade da irmã: “Você sempre foi a maior parceira do mundo, mesmo sendo avoadinha de tudo, sempre acreditando que todas as coisas sempre iam dar certo. E o pior: elas sempre davam certo!”

O pai, Manoel Marins, prestou homenagem: “No início deste ano [ela] nos disse que faria esse mochilão agora enquanto era jovem e nós a apoiamos… E como você estava feliz realizando esse sonho. E como nós ficamos felizes com a sua felicidade. Você se foi fazendo o que mais gostava e isso conforta um pouco o nosso coração.”

O Fantástico fez uma cobertura completa sobre o caso. Assista ao vídeo abaixo:

Mas, o que fica

Fica a história de uma menina de 26 anos que teve coragem de ouvir quando a vida sussurrou “agora” no ouvido dela. Fica a lição de que há pessoas dispostas a arriscar tudo por estranhos – como Agam e Tyo. Assim como, também fica a certeza de que, quando a tragédia bate à porta, ainda somos capazes de nos unir como uma família só.

Desde 2020, pelo menos oito pessoas morreram e 180 se acidentaram no Monte Rinjani. Em 2022, o israelense Boaz Bar Anan morreu da mesma forma, caindo 200 metros, e seu corpo só foi resgatado uma semana depois. Nada mudou desde então. Mas, será que nada vai mudar agora?

Será que milhões de brasileiros cobrando responsabilidade do presidente da Indonésia realmente não tem o poder de fazer justiça à tragédia de Juliana?

Brasileiros invadem Instagram do presidente da Indonésia e o responsabilizam pela morte de Juliana Marins. Foto: jokowi/Instagram.

Prefiro acreditar que a moça de sorriso largo de Niterói deixou, sim sua marca. Sua vontade imensa de viver!

Mas talvez essa seja a única revolução possível: continuar tentando viver, mesmo sabendo que o mundo é perigoso. Continuar subindo montanhas, mesmo sabendo que podemos cair. Continuar amando pessoas que talvez nunca mais voltemos a ver.

Juliana Marins viveu por um sonho e deixou um caminho com seu nome

Juliana Marins não morreu por ser imprudente. Ela morreu por ser humana, sem dúvida. Por ter tido de mergulhar no desconhecido de fato. Ela morreu fazendo o que a maioria de nós não tem coragem de fazer: viver de verdade (esse autor que vos escreve, por exemplo). A trilha para a Praia do Sossego, em Niterói, virou “Trilha Juliana Marins”. Era um dos lugares preferidos dela. Agora é um lugar onde outras pessoas vão poder pensar nela, nessa menina de 26 anos que teve coragem de ouvir quando a vida sussurrou “agora”.

E quando Mariana disse que tentou mover uma montanha pela irmã, ela não estava indo além da metáfora. Ela mobilizou um país inteiro, juntou 1,2 milhão de pessoas numa corrente de esperança, foi atacada por colocar o peito à prova, passou pelas agruras de virar pessoa pública e tudo de ruim que as redes sociais podem promover, virou notícia internacional, mexeu com embaixadas e governos. Tudo para salvar Juliana.

A montanha não se moveu. Mas o Brasil inteiro se moveu por ela.

E isso, de alguma forma torta e dolorosa, também é uma vitória.

Juliana Marins queria conhecer o mundo. E, por isso, acabou unindo o mundo em torno de sua história.

hoje liguei pra eles chorando de saudade. terminei a ligação com um sorrisão no rosto, rindo das bobeiras dos meus pais, e com uma paz no coração por ter vindo ao mundo nessa família. ah, e claro que minha irmã teve que sair no início da conversa porque ela tinha que entrar numa reunião. Fotos: ajulianamarins/Instagram


Este texto é uma homenagem a Juliana Marins e a todos os jovens brasileiros que saem pelo mundo em busca de seus sonhos. Que possamos encontrar formas de tornar essas jornadas mais seguras, sem perder a coragem de viver intensamente.

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