O governo federal lançou recentemente o Novo Desenrola Brasil, um programa emergencial para combater o crescente endividamento das famílias brasileiras. A iniciativa surge em um cenário de juros elevados, tanto pela taxa Selic quanto pelos spreads bancários, que pressionam o orçamento doméstico e atingem recordes históricos de dívidas em todo o país.
Cenário Macroeconômico Pressiona Orçamento Doméstico
Economistas indicam que a elevada taxa básica de juros, a Selic, praticada no Brasil, somada aos altos spreads bancários aplicados pelas instituições financeiras, contribuem diretamente para o aumento do endividamento. O spread bancário, por exemplo, alcançou 34,6 pontos percentuais (p.p.) em março, um aumento significativo em comparação aos 29,7 p.p. registrados no mesmo período do ano anterior.
Maria Lourdes Mollo, professora de economia da Universidade de Brasília (UnB), explicou que a taxa Selic, definida pelo Banco Central (BC), influencia diretamente os juros aplicados pelos bancos aos consumidores. Consequentemente, isso eleva os custos de empréstimos, dificultando o funcionamento da economia e aumentando as dívidas das pessoas.
Além disso, a professora da UnB citou a precarização dos empregos no Brasil, atribuída à reforma trabalhista, como um agravante para as famílias. Muitos indivíduos se endividam para complementar o orçamento ou pagar despesas essenciais com saúde e do cotidiano, tornando a situação financeira ainda mais delicada. O Novo Desenrola Brasil, nesse contexto, pode liberar parte do orçamento e, eventualmente, impulsionar a economia.
Juros Reais Entre os Maiores do Mundo
O Brasil ostenta a segunda maior taxa básica de juros reais do mundo, descontada a inflação, atingindo 9,3%. Apenas a Rússia, país em conflito, supera este patamar com 9,6%, enquanto o México, em terceiro, registra 5,0%. Os dados do site especializado Moneyou evidenciam a magnitude dos juros brasileiros em comparação global.
Na última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, a taxa Selic foi reduzida em 0,25 p.p., para 14,5%. Apesar da queda, o patamar ainda é considerado elevado por críticos, embora o BC defenda sua necessidade para o controle inflacionário. Contudo, essa alta taxa se reflete diretamente nos custos de crédito para a população.
O Impacto do Spread Bancário e a Inadimplência
O spread bancário, que representa a diferença entre os juros que os bancos pagam e os que cobram, é significativamente alto no Brasil. O Banco Mundial calcula uma média global em torno de 6 p.p., enquanto o país registra patamares muito superiores, chegando a ser líder mundial, segundo o ranking da World Open Data de 2024.
Juliane Furno, professora de economia da Universidade Federal Fluminense (UFF), avalia que o endividamento das famílias brasileiras é diretamente explicado por essas altíssimas taxas de spread bancário. Embora os bancos justifiquem os valores elevados pelo risco de inadimplência, a professora argumenta que a alta inadimplência também pode ser uma consequência dos juros já exorbitantes.
Dados do Banco Central de março revelam que os bancos cobram das pessoas físicas uma taxa de juros média de 61% ao ano, enquanto para as empresas essa média cai para 24%. Maria Mello de Malta, professora de economia política da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), reforça que a Selic alta eleva todas as outras taxas para a população.
Quando um trabalhador não consegue pagar o cartão de crédito ou um empréstimo, os juros se tornam ainda maiores do que a Selic. Essa situação cria uma “bola de neve”, fazendo com que as famílias busquem novas fontes para quitar dívidas anteriores, endividando-se progressivamente. Os juros do rotativo do cartão de crédito, por exemplo, podem ultrapassar 400% ao ano, demonstrando a gravidade do problema.
Endividamento Familiar Atinge Máxima Histórica
Pelo quarto mês consecutivo, o total de famílias com dívidas cresceu no Brasil, alcançando 80% em abril, o que representa uma “nova máxima histórica”, conforme pesquisa da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). O índice de famílias inadimplentes, com contas em atraso, manteve-se relativamente estável em 29,7%.
A pesquisa da CNC destaca que as famílias com renda de até três salários mínimos são as mais afetadas, registrando o maior nível de endividamento (83,6%) e o maior índice de contas em atraso (38,2%). Este cenário sublinha a urgência de medidas como o Novo Desenrola Brasil, focado em auxiliar os grupos mais vulneráveis.
O Programa Novo Desenrola Brasil
Lançado pelo governo federal, o Novo Desenrola Brasil tem como propósito fundamental ajudar famílias, estudantes e pequenos empreendedores a renegociar suas dívidas. O programa visa limpar o nome dos devedores, restaurando seu acesso ao crédito e, consequentemente, injetando recursos na economia ao liberar o poder de compra e o orçamento doméstico.
A expectativa é que o programa ofereça condições facilitadas para o pagamento de débitos, permitindo que milhões de brasileiros regularizem sua situação financeira. Com isso, busca-se não apenas aliviar a pressão sobre as famílias, mas também estimular o consumo e a atividade econômica, impulsionando a recuperação em diversos setores do país.

