Ataques de rebeldes houthis do Iêmen contra navios da Arábia Saudita no Mar Vermelho provocaram uma disparada no preço do barril de petróleo. Na quinta-feira, 23 de novembro de 2023, o barril de Brent superou a marca dos US$ 100, um aumento de 6% em um único dia, refletindo a escalada das tensões no Oriente Médio e o risco de impacto na inflação global.
Bloqueio estratégico no Oriente Médio
Os houthis, um grupo militar com apoio iraniano, anunciaram o fechamento do estratégico Estreito de Bab el-Mandeb para embarcações da Arábia Saudita. Essa ação eleva drasticamente a instabilidade no comércio global de combustíveis, visto que a Arábia Saudita figura entre os maiores produtores de petróleo do mundo.
A diretora técnica do Instituto de Estudos Estratégicos em Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep), Ticiana Álvares, enfatizou à Agência Brasil a relevância desse bloqueio. Segundo ela, as restrições impostas anteriormente no Estreito de Ormuz já haviam impulsionado a Arábia Saudita a utilizar oleodutos até o Mar Vermelho para escoar seu petróleo. Contudo, com o fechamento de Bab el-Mandeb, essa alternativa vital se tornou inviável.
Impacto nas rotas globais e nos fretes
A rota do Mar Vermelho possui uma importância incontestável, pois a Agência Internacional de Energia (AIE) estima que aproximadamente 10% do comércio marítimo de petróleo transita por essa via e pelo Estreito de Bab el-Mandeb. Portanto, a interrupção afeta diretamente a oferta do produto para mercados cruciais, como os Estados Unidos, que dependem do petróleo saudita para produzir derivados como gasolina e diesel.
Ticiana Álvares também alertou para as consequências mais amplas da crise. Se o fechamento do estreito se consolidar de forma generalizada, a Europa sofreria um impacto severo, já que grande parte do fluxo de mercadorias da Ásia para o continente europeu utiliza o Mar Vermelho. Consequentemente, haveria um aumento significativo nos preços dos fretes marítimos, exercendo uma pressão adicional sobre as cadeias logísticas globais.
Volatilidade dos preços e geopolítica
A alta atual sucede um período de cinco meses de redução na oferta de petróleo, que teve início após o recrudescimento das agressões entre Estados Unidos e Israel contra o Irã, em 28 de fevereiro de 2023. Essas tensões iniciais haviam causado o fechamento do Estreito de Ormuz, por onde transitavam cerca de 20% do comércio marítimo de combustíveis. Enquanto isso, um memorando de entendimento assinado entre Irã e EUA, em 17 de junho de 2023, fez o preço do barril cair, atingindo US$ 70 em 1º de julho de 2023, o menor valor desde o início do conflito. Desde então, antes do pico recente, o preço do Brent acumulou um aumento de 42%.
Rodolfo Queiroz Laterza, diretor do Instituto de Altos Estudos de Geopolítica, Segurança e Conflitos (GSEC), afirmou à Agência Brasil que a Arábia Saudita enfrentará perdas econômicas substanciais devido ao bloqueio. Além disso, ele prevê um agravamento das cadeias logísticas de abastecimento mundiais, prejudicando economias dependentes da importação de petróleo e derivados, um cenário que indiretamente repercute em regiões como Guarulhos e a Grande São Paulo através da inflação nos custos de transporte e produtos.
Nova fase no conflito do Oriente Médio
Danny Zahreddine, professor de relações internacionais da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Minas, interpreta o fechamento de Bab el-Mandeb pelos houthis como uma nova etapa na guerra entre Irã e Estados Unidos. Ele explicou que as ações americanas contra os iranianos tendem a ser respondidas com mais pressão sobre os EUA e seus aliados, o que certamente gerará um choque ainda maior na distribuição global de petróleo.
O historiador Laterza adicionou que a guerra entre Israel e EUA contra o Irã reativou conflitos antes inativos, a exemplo da guerra no Iêmen. Segundo ele, os recentes ataques aéreos sauditas ao porto de Sanaa, no Iêmen, provocaram a resposta firme dos houthis, que detêm a capacidade de negar o uso do Mar Vermelho e de Ormuz. Por outro lado, o professor Zahreddine alertou que não apenas a Arábia Saudita será afetada, mas todo o transporte vindo da Europa ou dos EUA, passando pelo Mar Vermelho e Canal de Suez, ou da Ásia com destino à Europa ou EUA, será impactado, dado que a rota via Bab el-Mandeb é significativamente mais curta e essencial para o comércio global.

