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Polipílula previne AVC hemorrágico e reduz risco de novos derrames

Agência SP

Um consórcio internacional de pesquisadores, que inclui a Faculdade de Medicina da Unesp (FMB) em Botucatu, anunciou recentemente resultados significativos de um ensaio clínico de cinco anos. Este estudo validou a eficácia de uma “polipílula”, um comprimido único contendo três anti-hipertensivos, na redução da pressão arterial e na prevenção de novos acidentes vasculares cerebrais (AVCs) em pacientes com histórico de derrame hemorrágico.

A descoberta representa um avanço crucial na luta contra uma das principais causas de morte e incapacidade no Brasil. A iniciativa visa melhorar a adesão ao tratamento e mitigar a alta recorrência da doença, oferecendo uma nova perspectiva para milhares de pacientes.

O Cenário do AVC no Brasil

O acidente vascular cerebral, popularmente conhecido como AVC, mantém-se como a segunda principal causa de morte entre os brasileiros, conforme dados recentes. Em 2024, a plataforma Tabnet do DataSUS registrou mais de 106 mil óbitos, evidenciando a gravidade do problema de saúde pública em todo o território nacional.

Além da alta mortalidade, a doença é a principal causa de incapacidade permanente, afetando significativamente a qualidade de vida dos pacientes. De fato, a Sociedade Brasileira de AVC indica que cerca de 70% das pessoas que sofrem um AVC não conseguem retornar ao trabalho e metade torna-se dependente de cuidados contínuos. Portanto, o controle dos fatores de risco é uma medida essencial para a prevenção e o manejo da doença.

Tipos e Impactos do AVC

O AVC pode manifestar-se de duas formas distintas: isquêmico ou hemorrágico. O tipo isquêmico, mais prevalente e responsável por 60% a 70% dos casos, ocorre devido à obstrução ou redução do fluxo sanguíneo em uma artéria cerebral, causando falta de circulação. Em contrapartida, o AVC hemorrágico, apesar de menos comum, é considerado o mais letal, sendo causado pela ruptura espontânea de um vaso e subsequente extravasamento de sangue no cérebro.

A pressão arterial elevada, o sedentarismo, a obesidade, o tabagismo e a dieta desequilibrada configuram-se como os principais fatores de risco para o desenvolvimento de um AVC. Por conseguinte, a recorrência da doença é uma característica preocupante. Pacientes que já sofreram um episódio têm maior probabilidade de enfrentar novos AVCs ou outros eventos cardiovasculares, como o infarto agudo do miocárdio, em um período de dois a cinco anos.

A Busca por Soluções Duradouras

Diante da alta recorrência e das consequências devastadoras do AVC, a manutenção do controle sobre os fatores de risco, em especial a pressão arterial, torna-se primordial. Contudo, um dos maiores desafios clínicos reside na adesão dos pacientes aos tratamentos a longo prazo, frequentemente comprometida pela complexidade e número de medicamentos. Esta dificuldade impulsionou a pesquisa por novas abordagens terapêuticas.

Nesse contexto, uma equipe internacional de pesquisadores dedicou-se a investigar o potencial de uma nova medicação. O objetivo era aprimorar o controle da pressão arterial em indivíduos que haviam sofrido um AVC hemorrágico, buscando uma solução que simplificasse o regime de tratamento e otimizasse a adesão do paciente, promovendo assim uma melhor qualidade de vida.

O Ensaio Clínico TRIDENT

O estudo, nomeado TRIDENT (Triple Therapy Prevention of Recurrent Intracerebral Disease Events Trial), configurou-se como um ensaio clínico multinacional, duplo-cego, randomizado e controlado por placebo. Ele envolveu 61 centros de pesquisa em 12 países, incluindo a Faculdade de Medicina da Unesp (FMB) em Botucatu, no Brasil. O principal propósito era avaliar a eficácia e a segurança de um único comprimido, a chamada polipílula.

Esta polipílula é composta por anti-hipertensivos já estabelecidos no mercado, administrados em baixas doses: telmisartana 20 mg, anlodipino 2,5 mg e indapamida 1,25 mg. Os pesquisadores administraram a polipílula de forma complementar ao tratamento padrão já estabelecido para os pacientes após a alta hospitalar. Isso visava simplificar o tratamento e potencializar os resultados clínicos.

Para participar do estudo, os pacientes precisavam apresentar estabilidade clínica, com pressão arterial sistólica entre 130 e 160 mmHg em repouso, mesmo sob terapia anti-hipertensiva. Além disso, não poderiam ter contraindicação a nenhum dos componentes da polipílula. Ao todo, os pesquisadores recrutaram 1.670 sujeitos com essas características para o ensaio.

Resultados Promissores da Polipílula

O acompanhamento dos pacientes revelou dados encorajadores, conforme explicou o médico neurologista Rodrigo Bazan, chefe do Departamento de Neurociências e Saúde Mental da Faculdade de Medicina de Botucatu e um dos investigadores principais do estudo no Brasil. Durante cinco anos, 833 pacientes receberam o comprimido triplo, enquanto 837 foram designados para o grupo placebo. As consultas ocorreram tanto presencialmente quanto remotamente.

Ao final do período de monitoramento, o grupo que recebeu a polipílula demonstrou uma pressão arterial média de 127 mmHg, significativamente inferior aos 138 mmHg registrados no grupo placebo. Adicionalmente, transcorridos dois anos e meio, apenas 38 pacientes (4,6%) do grupo da polipílula sofreram um novo AVC, em contraste com os 62 casos (7,4%) observados no grupo placebo.

Ainda mais, a incidência de outros eventos cardiovasculares importantes também foi notavelmente menor no grupo da polipílula, registrando 6,6% em comparação com 9,8% no grupo placebo. Portanto, o Dr. Bazan enfatizou a segurança do estudo e a relevância dos achados: “O simples fato de a pessoa controlar a pressão para níveis inferiores a 130 por 90 mmHg reduziu em 39% o risco de qualquer tipo de acidente vascular cerebral recorrente”.

O Diferencial Terapêutico

O sucesso da polipílula reside na sua capacidade de otimizar a adesão ao tratamento e de proporcionar um controle mais eficaz da pressão arterial. A combinação de três medicamentos em um único comprimido simplifica a rotina dos pacientes, um fator crucial para tratamentos de longo prazo, onde a desistência é comum. Consequentemente, essa abordagem pode transformar a prevenção secundária de AVCs hemorrágicos.

Este avanço não apenas oferece uma ferramenta poderosa para profissionais de saúde, mas também representa uma esperança renovada para milhares de pacientes em risco de recorrência. A polipílula, ao facilitar o manejo da hipertensão, um dos principais fatores de risco para AVC, estabelece um novo paradigma no cuidado pós-AVC, impactando positivamente a saúde pública e a qualidade de vida da população.

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