O Brasil registrou a menor taxa de subutilização da força de trabalho de sua história, atingindo 13,3% no trimestre móvel encerrado em maio, conforme dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, divulgados nesta sexta-feira (26) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Esta marca inédita, que superou o recorde anterior de 13,4% registrado em um período recente, reflete um mercado de trabalho significativamente aquecido, absorvendo mais trabalhadores e reduzindo o contingente de pessoas que gostariam de trabalhar mais horas ou que estão em busca de emprego, mas desistiram.
O que Significa a Taxa de Subutilização
A taxa de subutilização é um indicador crucial que mede o percentual da população em idade de trabalhar que não está plenamente aproveitada pelo mercado e, além disso, manifesta o desejo de trabalhar mais. Diferentemente da popular taxa de desocupação, que foca apenas nos que procuram emprego e não encontram, a subutilização oferece uma visão mais abrangente da dinâmica do emprego no país. Até maio, a taxa de desocupação estava em 5,6%, o menor índice já registrado para o período.
O analista da pesquisa, William Kratochwill, explica que o universo de subutilizados vai além dos desempregados, englobando três grupos distintos. Primeiramente, são os desocupados, que procuraram efetivamente uma vaga nos 30 dias anteriores à pesquisa. Em seguida, encontram-se os subocupados por insuficiência de horas trabalhadas, ou seja, indivíduos disponíveis que desejam mais horas de trabalho, mas não conseguem uma ocupação que supra as 40 horas semanais.
Por fim, a força de trabalho potencial abrange tanto os desalentados quanto os não desalentados. Kratochwill exemplifica que os desalentados são aqueles que não procuram trabalho por acreditar que não encontrarão, por motivos como a percepção de falta de vagas na região ou de serem muito jovens ou velhos. Por outro lado, os não desalentados são pessoas que querem trabalhar e estão disponíveis, mas não procuram vaga ou, mesmo procurando, não estavam aptos a iniciar imediatamente.
Comportamento Histórico do Indicador
No trimestre encerrado em maio, o número total de subutilizados alcançou 15,1 milhões de pessoas. Este contingente representa um recuo expressivo de 5,7% em relação ao trimestre anterior, o que corresponde a 920 mil pessoas a menos nessa condição. Em um ano, comparado ao trimestre encerrado em maio do ano anterior, quando o índice era de 14,9%, houve uma redução de 1,9 milhão de pessoas deixando a condição de subutilizadas.
William Kratochwill destaca que estes dados sinalizam uma diminuição constante no “estoque de pessoas”, ou seja, o colchão de trabalhadores que o mercado pode absorver está encolhendo progressivamente. Historicamente, a maior taxa de subutilização registrada pela Pnad foi de 30,7% no trimestre até agosto de 2020, diretamente influenciada pela pandemia de COVID-19, que paralisou diversas atividades econômicas em todo o país.
Antes da crise sanitária, contudo, o pico da subutilização havia sido de 25% no trimestre até maio de 2019, quando 28,4 milhões de pessoas se encontravam nessa situação. A atual queda, portanto, marca uma reversão significativa e duradoura da tendência observada nos últimos anos, indicando uma recuperação robusta e contínua do mercado de trabalho brasileiro.
Implicações de um Mercado Aquecido
Embora a taxa de desocupação seja mais popular e globalmente reconhecida, a taxa de subutilização serve como um termômetro preciso para avaliar o aquecimento do mercado de trabalho, conforme aponta Kratochwill. Ele reafirma que o mercado está, de fato, absorvendo toda a mão de obra possível, gerando potenciais efeitos positivos na relação entre trabalhadores e empregadores.
À medida que a mão de obra se torna mais escassa, a tendência é que o “preço” do trabalho precise subir. Consequentemente, as condições de trabalho e a qualidade das ofertas de emprego também tendem a melhorar, à medida que as empresas buscam atrair e reter talentos. Tal cenário pode resultar em salários mais competitivos e benefícios aprimorados, fortalecendo a posição dos trabalhadores no cenário econômico atual.

