A tarifa adicional de 25% imposta pelos Estados Unidos sobre o etanol brasileiro, anunciada em um período recente, deve gerar impactos pontuais sobre empresas exportadoras. Especialistas em economia e comércio internacional avaliam que o efeito geral sobre a economia nacional será limitado, considerando a já consolidada diversificação dos mercados compradores do biocombustível.
Contexto político e mercado imprevisível
Analistas indicam que a decisão tarifária possui forte componente político, indo além de simples ganhos comerciais. Luiz Carlos Delorme Prado, professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), destaca que a participação norte-americana nas exportações brasileiras de etanol já vinha em declínio há anos. Contudo, os EUA ainda figuram como o segundo principal destino do etanol nacional, mesmo com uma fatia reduzida.
Na visão de Delorme Prado, é improvável que a tendência de tarifação seja revertida no curto prazo. Embora a perda de qualquer mercado seja indesejável, sobretudo para setores específicos, o cenário não configura uma “tragédia” para a economia brasileira. Portanto, a estratégia do Brasil deve seguir a busca ativa por mercados alternativos para seu etanol.
A falta de previsibilidade na política comercial dos Estados Unidos, especialmente durante administrações anteriores, tornou esse mercado particularmente problemático. Fazer investimentos focados exclusivamente nesse destino é considerado arriscado, o que reforça a necessidade de o Brasil estabelecer parcerias comerciais mais confiáveis e estáveis, explica o professor.
Exportações mostram menor dependência dos EUA
Dados da União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica) revelam a pouca dependência do mercado norte-americano para as exportações de etanol do Brasil. Os Estados Unidos responderam por menos de 16% do volume total exportado e por cerca de 17,5% da receita obtida com as vendas externas do biocombustível em período recente. Ou seja, mais de 84% do volume e aproximadamente 82,5% do faturamento das exportações foram direcionados a outros mercados globais.
Essa distribuição diversificada de destinos minimiza o impacto de barreiras comerciais impostas por um único país. Além disso, a contínua diminuição da participação dos EUA nas exportações já havia preparado o setor para cenários como este, diminuindo a vulnerabilidade a políticas protecionistas.
Vantagem competitiva impulsiona novos mercados
A competitividade do Brasil no setor sucroalcooleiro representa uma vantagem estratégica na busca por novos mercados. As vantagens são estruturais, impulsionadas por custos de produção mais baixos e maior produtividade por hectare. Luis Augusto Barbosa Cortez, professor da Faculdade de Engenharia Agrícola da Unicamp e coordenador do Centro de Ciência para o Desenvolvimento do Etanol (CCD Etanol), explica que fatores climáticos e de solo são cruciais para essa superioridade.
Enquanto os Estados Unidos produzem etanol majoritariamente a partir do milho, o Brasil tradicionalmente utiliza a cana-de-açúcar e, mais recentemente, também incorporou o milho em sua produção. Cortez observa que a participação do milho na produção brasileira tende a crescer, aproveitando a capacidade de colher milho em segunda safra, algo em menor escala nos EUA devido a limitações climáticas de invernos rigorosos.
O produtor brasileiro consegue colher soja e, na sequência, plantar milho para uma segunda colheita no mesmo ano, otimizando o uso da terra. Atualmente, cerca de 75% do etanol nacional provém da cana-de-açúcar, enquanto os 25% restantes são produzidos a partir do milho. Essa flexibilidade e eficiência produtiva fortalecem a posição do Brasil para atrair outros compradores internacionais.

