O mercado de trabalho brasileiro registrou um crescimento notável na ocupação de pessoas com 60 anos ou mais, superando significativamente o ritmo de outros grupos etários. Contudo, essa expansão veio acompanhada de um aumento preocupante na informalidade, com grande parte dessas vagas sem carteira assinada e sem as devidas proteções trabalhistas. Os dados, divulgados esta semana pela empresa de pesquisa Nexus, revelam um cenário de oportunidades, mas também de precarização para este segmento.
Acelerado Crescimento no Mercado de Trabalho Sênior
Nos últimos dez anos, o número de trabalhadores com 60 anos ou mais no Brasil saltou expressivos 53%, passando de 5,7 milhões para quase 8,8 milhões de ocupados. Para contextualizar, nesse mesmo período, a população total dessa faixa etária cresceu 37%, de 25,8 milhões para 35,2 milhões, indicando que a absorção de idosos pelo mercado de trabalho é mais rápida do que o próprio envelhecimento populacional.
No fim do ano passado, aproximadamente uma em cada quatro pessoas 60+ estava ocupada, elevando a taxa de ocupação para 25%, o maior índice da década. Em comparação com o cenário geral, a população brasileira expandiu-se apenas 5% no período, enquanto o total de empregos no país aumentou 14,6%, totalizando cerca de 103 milhões de trabalhadores ao final de 2025. Esses números sublinham a crescente relevância dos trabalhadores seniores na força produtiva nacional.
Dupla Face da Ocupação Sênior: Capacidade Ativa e Precarização
Marcelo Tokarski, CEO da Nexus, descreve os resultados do estudo como um “copo meio cheio, meio vazio”. Por um lado, é possível celebrar a capacidade produtiva e a disposição para o trabalho de indivíduos em idades mais avançadas, inclusive aqueles com 70 ou até 75 anos, que demonstram aptidão e desejo de permanecer ativos no mercado.
Por outro lado, contudo, a pesquisa aponta uma crescente precarização do período que, idealmente, seria dedicado à aposentadoria e ao descanso. Muitos idosos se veem na necessidade de continuar trabalhando para complementar sua renda, o que levanta questões sobre a sustentabilidade econômica e o bem-estar social desse grupo.
Impacto da Reforma da Previdência
Um dos fatores que podem explicar o aumento da ocupação entre os 60+ é a Reforma da Previdência de 2019, conforme aponta Tokarski. A alteração das regras previdenciárias elevou a idade mínima e o tempo de contribuição exigidos para a aposentadoria, compelindo um número maior de pessoas a prolongar sua vida profissional.
A reforma estabeleceu novas exigências, como 62 anos de idade e 15 anos de contribuição para mulheres, e 65 anos de idade e 20 anos de contribuição para homens. Anteriormente, as mulheres podiam se aposentar com 60 anos, e não havia idade mínima para aposentadoria por tempo de contribuição para nenhum dos sexos, alterando significativamente o planejamento de vida de milhões de brasileiros.
Informalidade Preocupa no Segmento 60+
A informalidade representa uma realidade para mais da metade (53%) dos trabalhadores 60+, um índice superior ao da população geral, que é de 38%, e ao dos jovens de 18 a 24 anos, que registram 41%. O levantamento da Nexus, feito com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua do IBGE, incluiu diversas formas de ocupação, com e sem carteira assinada, temporários e por conta própria.
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) considera informais, por exemplo, empregados sem carteira assinada e autônomos sem CNPJ. Consequentemente, esses trabalhadores não possuem garantias essenciais como férias remuneradas, contribuição para a Previdência Social e décimo terceiro salário, configurando um cenário de vulnerabilidade para a parcela mais velha da população ativa.
Para Marcelo Tokarski, essa alta taxa de informalidade é uma característica estrutural do emprego para pessoas 60+, indicando uma clara precarização do trabalho. Ele argumenta que, diferentemente dos jovens que podem focar nos estudos ou prolongar a busca pela vaga ideal, o público sênior frequentemente não pode se dar ao luxo de permanecer desocupado, migrando rapidamente para a informalidade por necessidade.
Desafios e Próximos Passos para a Sustentabilidade
Diante deste panorama, uma das conclusões cruciais da pesquisa é que a sustentabilidade econômica do país agora requer políticas públicas eficazes de incentivo à formalização. Além disso, o estudo aponta para a urgência de uma revisão nas estruturas corporativas, contemplando ergonomia, benefícios e uma inclusão geracional mais efetiva, a fim de garantir um mercado de trabalho mais justo e equitativo para todos, especialmente para os mais experientes.

