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Três das quatro vítimas da ‘serial killer’ da feijoada eram de Guarulhos

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Foto: Reprodução

[ATUALIZAÇÃO 12/10/2025, 14h30]

Investigações revelaram que Ana Paula Veloso adotava padrão perturbador após os crimes: retornava às cenas e permanecia próxima às vítimas e autoridades. No assassinato de Maria Aparecida Rodrigues, em 11 de abril no Jardim Florida, ela usou nome falso “Carla” e ficou no local enquanto a família descobria o corpo. Já no caso de Marcelo Hari Fonseca, na Vila Renata, foi a própria acusada quem ligou para o 190. Vídeo de câmera corporal dos PMs mostra Ana Paula sorrindo ao lado dos agentes. Polícia classificou comportamento como “típico de perfil psicopata”.

A Justiça classificou Ana Paula Veloso Fernandes como “verdadeira serial killer de Guarulhos”. Três das quatro vítimas da mulher de 36 anos moravam na cidade. Ela permanece presa preventivamente desde 4 de setembro por quatro homicídios qualificados por envenenamento que ocorreram entre janeiro e maio de 2025. Conforme decisão da Vara do Júri de Guarulhos, a acusada teria manipulado investigações, simulado ameaças contra si mesma e tentado culpar um ex-amante pelos crimes. As vítimas em Guarulhos foram Marcelo Hari Fonseca, morto em janeiro, e Maria Aparecida Rodrigues, falecida entre 10 e 11 de abril.

As vítimas em Guarulhos foram Marcelo Hari Fonseca, morto em janeiro, e Maria Aparecida Rodrigues, falecida entre 10 e 11 de abril. Além delas, Ana Paula é acusada de matar Neil Corrêa da Silva em Duque de Caxias (RJ) em 26 de abril e Hayder Mhazres em São Paulo capital em 23 de maio. Segundo o Ministério Público, todos os crimes apresentam o mesmo padrão: uso de veneno, motivação considerada torpe e métodos que impediram as vítimas de se defenderem.

Vítimas de Guarulhos: primeira morou com a acusada

A Polícia Civil confirmou Marcelo Hari Fonseca, de 51 anos, como primeira vítima fatal das investigações. Ele morreu em 31 de janeiro de 2025 dentro de sua residência na Vila Renata, bairro de Guarulhos. A própria Ana Paula ligou para o 190 relatando “mau cheiro” no imóvel.

A ligação para a polícia e o sorriso na tragédia

Quando os policiais militares chegaram ao endereço naquela tarde de janeiro, encontraram Ana Paula aguardando na porta. Ela se apresentou como inquilina dos fundos do terreno e disse que há dias não via o proprietário. O mau cheiro vindo de dentro da casa havia se tornado insuportável, explicou.

Vídeo gravado por câmeras corporais dos PMs registra o momento em que os agentes encontram o corpo de Marcelo em estado avançado de decomposição. Na gravação, apesar de ter acabado de descobrir que o homem com quem dividia a casa estava morto há dias, Ana Paula aparece sorrindo, aparentemente despreocupada com a cena.

Câmera corporal de PMs registra momento em que Ana Paula descobre corpo de Marcelo Hari em Guarulhos. Fonte: SSP-SP

O que ela não contou aos policiais naquele momento era que não existia “casa nos fundos”. Ana Paula, seu filho e uma sobrinha adolescente moravam no mesmo espaço que Marcelo — apenas uma tábua de madeira separava as duas áreas do imóvel. Ela estava lá há poucos dias, desde que se mudara do Rio de Janeiro para Guarulhos em janeiro.

No dia seguinte à descoberta do corpo, Ana Paula impediu a família de Marcelo de entrar no imóvel. Alegou ter pago antecipadamente a estadia ao proprietário, mas jamais apresentou qualquer comprovante. Permaneceu na casa até ser presa, quando finalmente confessou formalmente ter matado Marcelo.

A motivação seria a casa

De acordo com documentos judiciais obtidos pela imprensa, Ana Paula morava nos fundos do imóvel de Marcelo de favor. A acusada teria conhecido o proprietário e ele permitiu que ela residisse no local. Conforme a investigação, a motivação do crime teria sido a intenção de Ana Paula se apoderar de modo exclusivo da residência da vítima.

Foi a própria acusada quem chamou a polícia relatando o desaparecimento de Marcelo. Entretanto, familiares do proprietário estranharam o comportamento dela e começaram a suspeitar. A morte inicialmente não levantou suspeitas imediatas, mas investigações posteriores identificaram envenenamento como causa.

Segunda vítima em Guarulhos morreu em abril

A Polícia Civil identificou Maria Aparecida Rodrigues como segunda pessoa morta em Guarulhos, conforme apontam as investigações. O crime ocorreu entre os dias 10 e 11 de abril de 2025, pouco mais de dois meses após a morte de Marcelo Hari Fonseca. O Ministério Público aponta que o caso apresenta características semelhantes ao primeiro homicídio.

Não há muitas informações públicas sobre as circunstâncias específicas da morte de Maria Aparecida. A Polícia Civil identificou o uso de substância tóxica como causa do óbito em ambos os casos. Os investigadores consideraram torpe a motivação do crime, conforme consta na acusação.

A proximidade temporal entre os dois crimes em Guarulhos chamou atenção dos investigadores. Ambas as vítimas foram envenenadas na mesma cidade em um intervalo de menos de três meses, demonstrando um padrão de atuação concentrado geograficamente antes da acusada se deslocar para outros estados.

Execuções por encomenda custavam R$ 4 mil

Além dos crimes envolvendo pessoas com quem Ana Paula tinha algum tipo de relação, as investigações apontam que ela e sua irmã gêmea, Roberta Cristina Veloso Fernandes, também presa, vendiam serviços de execução. O delegado revelou que elas chamavam o serviço de “TCC” — sigla de Trabalho de Conclusão de Curso.

Segundo a Polícia Civil, cada assassinato por encomenda custaria ao menos R$ 4 mil divididos igualmente entre as duas irmãs. Foi nesse contexto que ocorreu a morte de Neil Corrêa da Silva no Rio de Janeiro. Michele Paiva da Silva, filha do idoso de 65 anos, teria contratado os serviços e financiado a viagem de Ana Paula de Guarulhos para Duque de Caxias.

Neil teria sido envenenado após consumir feijoada preparada pela acusada. O homem passou mal e veio a óbito. Michele também enfrenta prisão preventiva e responde pelos mesmos crimes que Ana Paula neste caso específico. Conforme as investigações, a motivação estaria relacionada a questões financeiras e herança.

Quarta vítima foi morta em São Paulo capital

A Polícia Civil confirmou que a última vítima fatal morreu em 23 de maio de 2025 na cidade de São Paulo. Hayder Mhazres faleceu cerca de um mês após o homicídio no Rio de Janeiro. Novamente, as investigações apontam uso de veneno e motivação que a Justiça considera torpe.

Segundo informações obtidas pela imprensa, Ana Paula teria conhecido Hayder através do aplicativo de relacionamentos Tinder. Conforme aponta a investigação, ela teria matado esta vítima com um objetivo específico: incriminar um ex-companheiro pelos crimes que vinha cometendo.

A estratégia, conforme descreve a Polícia Civil, fazia parte de uma tentativa mais ampla de manipular as investigações. Ana Paula teria criado uma narrativa na qual ela seria vítima de perseguição por parte do ex-amante, tentando desviar as suspeitas sobre sua participação nos homicídios anteriores.

Padrão perturbador: acusada retornava às cenas dos crimes

Investigações revelaram um comportamento que chama atenção de especialistas: Ana Paula retornava sistematicamente às cenas dos crimes e permanecia próxima às vítimas, testemunhas e autoridades. Segundo o delegado Halisson Ideiao Leite, do 1º Distrito Policial de Guarulhos, esse padrão é típico de perfil psicopata.

No caso de Marcelo Hari, foi ela quem acionou a polícia. Vídeo gravado por câmeras corporais dos policiais militares mostra Ana Paula aparentemente tranquila ao descobrir o corpo. Ela se apresentou como inquilina dos fundos do terreno, mas investigações posteriores revelaram que não havia casa separada — apenas uma tábua de madeira dividia o espaço.

No assassinato de Maria Aparecida, Ana Paula apareceu na casa da vítima durante a descoberta do corpo pela família. Permaneceu no local até a remoção, fingindo ser apenas conhecida da vítima. O mesmo padrão se repetiu nos outros dois crimes: no caso de Neil no Rio de Janeiro, estava na casa quando ele passou mal, e no caso de Hayder em São Paulo, acompanhou a vítima na ambulância e depois foi à delegacia comunicar a morte.

Análise revela possíveis traços de psicopatia

Conforme análise do psiquiatra forense Talvane de Moraes, acionar as autoridades pode ser forma de buscar impunidade e se colocar como vítima. O delegado Halisson Leite classificou Ana Paula como “extremamente manipuladora” que ia à delegacia perguntar sobre andamento do inquérito sempre se apresentando como vítima.

A decisão da Vara do Júri de Guarulhos, divulgada nesta semana, trouxe novidades sobre as tentativas de Ana Paula de manipular ativamente as investigações. O juiz Rodrigo Tellini de Aguirre Camargo afirma que a acusada simulou ameaças contra sua própria vida e segurança.

Conforme aponta a decisão judicial, Ana Paula criou uma narrativa de que seria vítima e não autora dos crimes. Além das ameaças simuladas, ela tentou culpar um ex-companheiro pelos homicídios. Essa estratégia teria sido elaborada para desviar o foco das investigações e criar dúvida razoável sobre sua participação.

O magistrado considerou essa conduta como demonstração adicional da periculosidade da acusada. A capacidade de manipular provas e informações foi um dos fundamentos utilizados para manter a prisão preventiva. Segundo a decisão, a liberdade de Ana Paula representaria risco à ordem pública e à instrução criminal.

Justiça classificou como “verdadeira serial killer”

O magistrado usou o termo “verdadeira serial killer” na decisão que mantém a prisão preventiva. O documento mostra que o Tribunal de Justiça de São Paulo acusa Ana Paula Veloso de matar quatro vítimas em situações diferentes com uso de veneno.

De acordo com o magistrado, Ana Paula possui conhecimento técnico sobre o uso de substâncias tóxicas. Ela controlava tempo e dosagem para que as mortes aparentassem causas naturais, dificultando a identificação imediata de crime. Esse domínio técnico teria sido aprimorado através de testes realizados em animais.

Após sua prisão, Ana Paula confessou à Polícia Civil ter causado a morte de dez cachorros utilizando veneno. Conforme declarações do delegado responsável, a acusada teria feito isso para testar o efeito das substâncias e aprimorar o método que seria usado contra seres humanos.

Veneno apreendido na residência da acusada

Agentes da Polícia Civil apreenderam terbufós durante buscas na residência de Ana Paula em Guarulhos. Este agrotóxico é considerado menos potente que o popularmente conhecido como chumbinho. A substância estava armazenada em condições que indicavam uso planejado e não acidental.

Segundo as autoridades policiais, Ana Paula demonstrava conhecimento considerável sobre o uso de agrotóxicos. Ela sabia controlar cuidadosamente a dosagem e o tempo de ação das substâncias. Consequentemente, as mortes se assemelhavam a causas naturais, atrasando a identificação dos crimes.

O terbufós é um composto químico utilizado em agricultura como pesticida. Entretanto, quando ingerido por seres humanos, pode causar intoxicação grave com sintomas que incluem náuseas, vômitos, convulsões e parada cardiorrespiratória. O governo controla a venda deste tipo de produto e considera irregular sua posse sem finalidade agrícola.

Prisão preventiva mantida por risco à sociedade

Para delegado do caso, Ana Paula tem o perfil típico de psicopata — Foto: Reprodução

Ana Paula Veloso Fernandes permanece presa preventivamente desde 4 de setembro de 2025. A defesa solicitou a revogação da prisão, mas a Vara do Júri de Guarulhos negou o pedido. O juiz Rodrigo Tellini de Aguirre Camargo manteve a medida cautelar e listou diversos fundamentos na decisão.

Entre os argumentos estão a gravidade concreta dos crimes, demonstrada pela pluralidade de vítimas e pelo método planejado. Ademais, o magistrado destacou o risco de reiteração criminosa, considerando que os crimes ocorreram em sequência durante cinco meses. A capacidade de manipulação das investigações também justificou a manutenção da prisão.

A acusação formal ainda não foi totalmente concluída pelo Ministério Público, que segue coletando provas e depoimentos. Enquanto isso, Ana Paula aguarda em prisão preventiva o prosseguimento das investigações. O caso tramita sob sigilo parcial na Vara do Júri de Guarulhos e deve seguir para júri popular após conclusão da fase de instrução processual.

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