Ícone do site Guarulhos Online

Paisagens Agrícolas Estáveis: Unesp Revela Impacto na Diversidade de Pequenos Mamíferos

Agência SP

Pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em colaboração com cientistas da Espanha e do Reino Unido, revelaram recentemente que paisagens agrícolas mais estáveis, com menor modificação ao longo do tempo, abrigam uma maior diversidade de pequenos mamíferos. O estudo, conduzido em áreas da Mata Atlântica localizadas no nordeste de São Paulo e sul de Minas Gerais, aponta que cultivos perenes, como o eucalipto, oferecem condições mais favoráveis à fauna local em comparação com culturas de ciclo curto, como soja e milho. Os achados, portanto, são cruciais para orientar novas estratégias de manejo e conservação de espécies em ambientes agrícolas, especialmente diante do avanço das lavouras e da fragmentação do bioma.

A Importância da Estabilidade no Agronegócio para a Biodiversidade

A pesquisa destaca a relação direta entre a constância dos sistemas agrícolas e a presença de vida silvestre. Assim, plantios perenes, por sua natureza, mantêm uma estrutura de habitat mais homogênea e disponível por períodos estendidos, o que proporciona abrigo e recursos contínuos para os animais. Em contraste, áreas de cultivo de ciclo curto sofrem alterações drásticas e frequentes, desestabilizando o ambiente e dificultando a permanência de diversas espécies.

Dessa forma, a permanência de coberturas vegetais duradouras, mesmo em áreas de produção, surge como um fator mitigador da pressão sobre a biodiversidade. O estudo sugere que a consideração do tempo de uso e da alteração das paisagens agrícolas pode ser tão relevante quanto o tipo de cultivo para a formulação de políticas ambientais e de desenvolvimento sustentável no setor agrícola brasileiro.

Metodologia Abrangente no Corredor Cantareira-Mantiqueira

A investigação foi realizada em uma área estratégica conhecida como Corredor Cantareira-Mantiqueira, um elo ecológico vital que conecta remanescentes da Mata Atlântica em São Paulo e Minas Gerais. Essa região, por sua vez, caracterizada por sua rica biodiversidade e, ao mesmo tempo, por um intenso uso do solo para atividades agrícolas, configura-se como um laboratório natural ideal para compreender a interação entre a produção rural e a conservação da fauna.

Os cientistas selecionaram 63 pontos de amostragem, distribuídos em áreas florestais, pastagens, cultivos agrícolas e plantações de eucaliptos, para realizar as coletas. Em cada um desses locais, foram instaladas 50 armadilhas, posicionadas tanto no solo quanto a alguns metros de altura. Isso permitiu a captura de uma ampla gama de mamíferos, incluindo aqueles de hábito terrestre e os arborícolas, que se movem pela copa das árvores.

Adicionalmente, o esforço resultou na identificação de 21 espécies de marsupiais e roedores não voadores de pequeno porte, entre eles cuícas, ratos-do-mato e gambás-de-orelha-preta. Os dados de localização das capturas foram combinados com mapas detalhados de uso e cobertura do solo da região, bem como com índices de vegetação derivados de imagens de satélite. Essa abordagem integrada conferiu uma profundidade analítica sem precedentes ao trabalho.

Inovação na Análise Temporal com Índices de Vegetação

A metodologia empregada pelos pesquisadores destacou-se pela utilização combinada de mapas de uso da terra e índices de vegetação, o que proporcionou uma análise mais detalhada da dinâmica dos cultivos agrícolas. Enquanto os mapas delinearam a variedade das paisagens, os índices de vegetação — cálculos matemáticos baseados na luz absorvida ou refletida pelas lavouras — permitiram avaliar a saúde e o desenvolvimento das plantas ao longo do tempo.

Viviane Brito Dias, bióloga e principal pesquisadora do artigo, explica que os mapas convencionais, embora úteis, não fornecem informações cruciais sobre as alterações frequentes ou a qualidade específica dos cultivos. Contudo, os índices de vegetação superam essa limitação. “Eles conseguem mostrar, por exemplo, o quão produtiva está uma vegetação, se elas são formadas por espécies parecidas ou diferentes ou como esses espaços variaram ao longo do ano”, afirma Dias, doutora pela Unesp de São José do Rio Preto.

Resultados Surpreendentes e Implicações para a Biodiversidade Regional

Os achados da pesquisa demonstram que a característica e a dinâmica dos ciclos das culturas exercem uma influência direta na atração e na sustentação de populações de pequenos mamíferos. Conforme os dados do vigor da vegetação foram analisados ao longo de um ano, percebeu-se que áreas de mosaico, sujeitas a mudanças constantes no uso do solo, impactaram negativamente a presença de pequenas espécies.

Por outro lado, observou-se uma relação positiva e surpreendente em ambientes com pouca alteração temporal. Em particular, as plantações de eucalipto, cujo ciclo pode se estender por seis a nove anos, revelaram-se hospitaleiras para roedores e pequenos mamíferos em geral. A estabilidade desses monocultivos perenes oferece um refúgio inesperado para a fauna.

Em um depoimento notável, Dias revelou que a presença de espécies endêmicas e vulneráveis da Mata Atlântica foi observada nas áreas de eucalipto. “Encontramos, por exemplo, cuícas de solo terrestre, que esperamos encontrar apenas em áreas florestais. Isso nos surpreendeu”, destacou a pesquisadora. Essa descoberta sublinha o potencial das paisagens agrícolas mais estáveis, mesmo aquelas tidas como menos naturais, para atuarem como importantes corredores ou refúgios na conservação da biodiversidade local.

Sair da versão mobile