Sete em cada dez gestores de escolas públicas brasileiras, representando 71,7% dos entrevistados, revelam grandes dificuldades em promover o diálogo sobre o enfrentamento de diversas formas de violência no ambiente escolar, como bullying, racismo e capacitismo. Esta alarmante constatação emerge de uma pesquisa recém-divulgada pela Fundação Carlos Chagas (FCC) em parceria com o Ministério da Educação (MEC), envolvendo 136 diretores de 105 instituições de ensino, sendo 59 municipais e 46 estaduais. O estudo, apresentado nesta semana, busca fundamentar um novo Guia de Clima Escolar Positivo, uma iniciativa federal lançada para auxiliar na gestão desses complexos desafios da violência nas escolas.
Contexto e Metodologia da Pesquisa
Esta investigação, divulgada recentemente, foi conduzida pela Fundação Carlos Chagas (FCC), uma instituição sem fins lucrativos de relevância nacional, em colaboração com o Ministério da Educação (MEC). O levantamento abrangeu um universo significativo de 136 gestores escolares, que representam 105 escolas públicas, fornecendo uma base sólida para a análise do cenário atual da violência nas escolas.
Metodologia e Objetivos
O principal objetivo do estudo consistiu em coletar informações detalhadas e atualizadas que pudessem servir de subsídio para a elaboração do novo Guia de Clima Escolar Positivo para Equipes Gestoras. Ademais, esta iniciativa governamental, programada para ser lançada oficialmente em um evento transmitido pelo canal do MEC no YouTube, visa capacitar e apoiar os profissionais da educação no manejo das complexas dinâmicas escolares. Conforme noticiado, o IBGE também alertou sobre o quadro preocupante na saúde mental de adolescentes, reforçando a urgência de ações nesse campo.
Desafios no Enfrentamento à Violência Escolar
O coordenador do estudo, o pesquisador Adriano Moro, vinculado ao Departamento de Pesquisas Educacionais da FCC, enfatiza que a gestão de situações de violência no ambiente escolar é uma questão intrinsecamente complexa. Nesse sentido, ele aponta a necessidade premente de preparo adequado, apoio institucional contínuo e a implementação de ações meticulosamente planejadas para enfrentar tais adversidades da violência nas escolas.
A Naturalização da Violência
Moro sublinha a dificuldade específica da naturalização da violência. Ele explica que, em muitos casos, adultos dentro do ambiente escolar acabam por interpretar agressões como meras ‘brincadeiras’, minimizando a seriedade das ocorrências. Esta percepção equivocada pode, portanto, levar à omissão crucial, justamente no momento em que os estudantes mais necessitam de intervenção e suporte contra a violência nas escolas.
Ambiente Marcado por Violência Externa
Além disso, o coordenador contextualiza que diversas escolas operam em regiões notavelmente afetadas pela violência ‘fora de seus muros’, o que agrava o quadro interno. Consequentemente, a dificuldade em engajar famílias e a comunidade de forma mais ampla intensifica a pressão sobre as escolas, que frequentemente se veem sozinhas na tarefa de lidar com esses desafios multifacetados relacionados à violência nas escolas.
O Uso Genérico do Termo Bullying
Adriano Moro também destaca uma dificuldade adicional: a aplicação genérica do termo ‘bullying’. O pesquisador adverte que o bullying, um fenômeno com especificidades próprias, representa uma forma grave de violência que exige atenção diferenciada e nomenclatura correta. Contudo, ao não ser devidamente nomeada, essa violência vivenciada pode obscurecer problemas específicos, como racismo, capacitismo, xenofobia ou violência de gênero, impedindo abordagens eficazes.
O bullying, oriundo da língua inglesa, define uma forma de violência física ou psicológica, usualmente repetida, que provoca danos físicos, sociais e emocionais à vítima. Geralmente, um ou mais agressores utilizam xingamentos, apelidos pejorativos, intimidação, humilhação, agressão ou discriminação para atingir o estudante. Portanto, a precisão na identificação é crucial para uma resposta adequada à violência nas escolas.
Clima Escolar Positivo como Estratégia de Combate
Para o representante da Fundação Carlos Chagas, a promoção de um clima escolar positivo desempenha um papel fundamental no enfrentamento das diversas formas de violência. Isso porque um ambiente pautado pela confiança, respeito mútuo e escuta ativa entre estudantes e adultos estabelece as condições ideais para que a escola transcenda uma atuação meramente reativa contra a violência nas escolas.
Nesse contexto, a instituição de ensino pode passar a agir de maneira mais preventiva, intencional e colaborativa, identificando problemas precocemente. Quando se estabelecem relações de confiança, torna-se mais fácil nomear corretamente as violências e, assim, agir com maior responsabilidade e justiça, construindo soluções duradouras para os desafios de segurança escolar.
Outras Constatações Relevantes da Pesquisa
A pesquisa da FCC e do MEC não se limitou ao tema da violência nas escolas, buscando também compreender a gestão do clima entre alunos, profissionais de ensino e famílias. Os dados revelam que 67,9% dos gestores entrevistados enfrentam desafios significativos na aproximação entre escola, famílias e comunidade, um elo essencial para o desenvolvimento educacional.
Ademais, 64,1% dos gestores indicam entraves na construção de relacionamentos saudáveis entre os próprios estudantes, enquanto 60,3% mencionam dificuldades para cultivar o sentimento de pertencimento dos alunos à instituição. Outros 60,3% reconhecem obstáculos na relação entre estudantes e professores, e 49% apontam desafios na promoção de um sentimento geral de segurança entre os alunos no contexto da violência nas escolas.
Diagnóstico e Estrutura das Escolas
Na busca por entender a organização interna das unidades de ensino para fomentar um ambiente escolar positivo, o levantamento expôs que mais da metade delas, precisamente 54,8%, nunca realizaram um diagnóstico estruturado do clima escolar. Para os responsáveis pelo estudo, essa etapa é considerada essencial e serve como guia para a formulação de políticas eficazes de convivência e aprendizagem.
Contudo, foi identificado que mais de dois terços, ou seja, 67,6% das unidades de ensino, já dispõem de uma equipe dedicada às ações de melhoria do clima escolar. Nas escolas restantes, que somam 32,4%, as responsabilidades por essas ações recaem diretamente sobre a gestão, que frequentemente se encontra sobrecarregada, conforme pontua Adriano Moro.
Moro salienta que a gestão escolar, de maneira geral, precisa lidar com inúmeras urgências simultaneamente. Por essa razão, as equipes acabam priorizando a resolução de problemas imediatos em detrimento de uma abordagem mais planejada e preventiva para a violência nas escolas. Além disso, a sobrecarga de trabalho impede uma atuação mais estratégica na construção de um clima escolar ideal.
A Relação com a Aprendizagem
O pesquisador Adriano Moro classifica como ‘muito forte’ a correlação direta entre um clima escolar positivo e o desempenho pedagógico dos estudantes. Segundo ele, o ambiente nos colégios influencia diretamente não apenas o bem-estar de todos os envolvidos, mas também os processos de ensino e de aprendizagem, sendo um fator determinante para combater a violência nas escolas.
Para que a aprendizagem aconteça com qualidade e equidade, é imprescindível que os estudantes se sintam verdadeiramente acolhidos no ambiente escolar. Consequentemente, quando os alunos se sentem respeitados e seguros para errar, eles demonstram maior engajamento, aprendem de forma mais eficaz e desenvolvem suas habilidades plenamente.

