Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) apresentaram um novo e promissor método para o diagnóstico precoce da hanseníase, combinando um exame de sangue, um questionário clínico e uma ferramenta de inteligência artificial. A inovação, testada em Ribeirão Preto a partir de amostras coletadas durante um inquérito de Covid-19, demonstra um potencial significativo para identificar a doença em suas fases iniciais, antes que os sintomas se manifestem de forma clara ou que os exames tradicionais consigam detectá-la, visando aprimorar o tratamento e controle da enfermidade.
O Desafio do Diagnóstico da Hanseníase
A hanseníase, uma doença milenar com profundas raízes históricas, persiste como um problema de saúde pública no Brasil, enfrentando desafios consideráveis. Atualmente, a falta de tecnologias laboratoriais sensíveis e a dificuldade de profissionais de saúde em reconhecer as formas iniciais da doença resultam em diagnósticos tardios, contribuindo para a propagação e para o avanço da enfermidade em muitos indivíduos.
Ademais, o tratamento padrão, que se mantém praticamente inalterado por mais de quatro décadas, apresenta limitações, incluindo casos de falha terapêutica e o surgimento de resistência bacteriana. Contudo, a identificação tardia dos casos é um dos principais entraves, pois quando diagnosticada precocemente, a hanseníase possui cura e a transmissão pode ser interrompida rapidamente, protegendo a comunidade e o sistema de saúde.
Metodologia Inovadora da USP
A pesquisa, coordenada por Marco Andrey Frade na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP (FMRP-USP) e publicada na revista BMC Infectious Diseases com apoio da Fapesp, buscou justamente superar esses gargalos. Dessa forma, a equipe focou na identificação de novos biomarcadores e testes mais eficazes para o diagnóstico precoce da hanseníase, aproveitando um recurso valioso: amostras de sangue previamente coletadas durante a pandemia de Covid-19 na mesma região.
O método inovador integra duas ferramentas de triagem essenciais para a detecção da hanseníase. Primeiramente, aplica-se um questionário clínico de suspeição de hanseníase (QSH), composto por 14 perguntas focadas em sintomas neurológicos, aprimorado pela inteligência artificial MaLeSQs. Em seguida, os pesquisadores realizam um exame de sangue capaz de detectar anticorpos contra o antígeno Mce1A, uma proteína crucial do Mycobacterium leprae que facilita a invasão bacteriana.
A Superioridade do Novo Biomarcador
O antígeno Mce1A representa um avanço significativo em comparação ao PGL-I, o antígeno tradicionalmente empregado em exames de sangue para hanseníase. Diferentemente do teste convencional, que avalia a presença de apenas um tipo de anticorpo, o novo exame analisa três classes distintas (IgA, IgM e IgG). Conforme explicou o biomédico Filipe Lima, um dos autores do estudo, essa abordagem amplia a sensibilidade do teste.
Por conseguinte, essa ampliação permite diferenciar entre a mera exposição ao bacilo, uma infecção ativa ou um contato prévio, oferecendo um panorama mais completo da condição do paciente. O teste tradicional, por outro lado, geralmente só positiva nas formas mais avançadas da doença, quando o bacilo já se proliferou e as lesões são visíveis. O Mce1A, portanto, possibilita a identificação do contato com o bacilo e da doença ativa em estágios muito mais iniciais.
Resultados Promissores e o Futuro
Para validar o método, os pesquisadores convidaram cerca de 700 participantes de um inquérito populacional anterior para o estudo da hanseníase. Desses, 224 aceitaram responder ao questionário digital, e 195 tiveram suas amostras de sangue analisadas. Posteriormente, todos foram convidados para uma avaliação clínica presencial com especialistas, etapa indispensável para a confirmação definitiva dos diagnósticos.
Dos 37 indivíduos que compareceram à consulta presencial, o cruzamento dos dados do questionário, exame e avaliação clínica revelou um achado surpreendente: 12 novos casos de hanseníase foram diagnosticados, representando aproximadamente um terço dos avaliados. Tratam-se de pessoas que não exibiam sintomas evidentes e não tinham suspeita da doença, sendo identificadas exclusivamente graças à metodologia empregada no projeto.
Entre os exames laboratoriais, o anticorpo IgM contra o antígeno Mce1A demonstrou o melhor desempenho, detectando dois terços dos novos casos confirmados. Quando combinado com a ferramenta de inteligência artificial MaLeSQs, o método alcançou 100% de sensibilidade, sinalizando corretamente todos os casos suspeitos de hanseníase que foram subsequentemente confirmados na avaliação clínica presencial.
Embora o exame de sangue isoladamente não seja suficiente para confirmar o diagnóstico da hanseníase, ele se estabelece como uma poderosa ferramenta de triagem para guiar investigações adicionais. Esta pesquisa representa um marco fundamental para a saúde pública brasileira, oferecendo uma nova esperança no combate a uma doença que, apesar de curável, ainda afeta milhares de pessoas anualmente e tem no diagnóstico precoce da hanseníase o seu maior aliado.


