O presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou enfaticamente, nesta segunda-feira (20), a ameaça proferida pelo governo dos Estados Unidos de vetar a participação da África do Sul no G20, o prestigiado grupo das maiores economias mundiais e da União Europeia. Em sua declaração, feita durante entrevista em Hanôver, na Alemanha, onde cumpre agenda oficial, o líder brasileiro afirmou que Washington não possui o direito de proibir um membro fundador de participar do bloco. A postura de Lula surge em meio a uma escalada de tensões diplomáticas em relação à presença sul-africana no próximo encontro do fórum, agendado para novembro, nos EUA.
Cenário de Tensões: Acusações de Trump e o Fórum G20
Desde o ano passado, o então presidente norte-americano, Donald Trump, tem proferido acusações infundadas contra o governo da África do Sul, especialmente a respeito de uma lei de reforma agrária aprovada no país africano. Ademais, essa campanha culminou com a decisão de Trump de suspender a ajuda financeira aos sul-africanos, intensificando a pressão. Contudo, essa série de eventos levou o ex-presidente a declarar que não convidaria o líder sul-africano, Cyril Ramaphosa, para o próximo encontro do G20, que os Estados Unidos presidem este ano.
A importância do G20, criado em 1999 e elevado a nível de cúpula de chefes de Estado e de Governo em 2008, reside na sua capacidade de congregar as principais economias do mundo para debater e coordenar políticas financeiras e econômicas globais. Consequentemente, a possibilidade de exclusão de um membro fundador por questões políticas bilaterais representa uma ameaça direta à sua natureza multilateral e ao seu propósito original. A crise econômica de 2008, inclusive, que teve seu epicentro nos EUA, foi o catalisador para a formalização do grupo como um fórum de líderes, buscando soluções cooperativas para desafios globais.
A Defesa Incondicional de Lula ao Multilateralismo
Em diálogo recente com o presidente Cyril Ramaphosa, Lula relatou ter assegurado que os Estados Unidos não detêm o direito de proibir a participação de um membro fundador do G20, instando-o a comparecer ao evento. “Eu disse ao Ramaphosa que ele deve comparecer ao G20. Ele não pode deixar de ir porque o Trump disse para ele não ir”, declarou Lula, demonstrando firmeza em sua posição. Segundo o presidente brasileiro, a exclusão unilateral de qualquer nação fragilizaria a coesão e a relevância do próprio bloco.
Lula também fez um alerta sobre as implicações de tal precedente: “Se vai tirar a África do Sul hoje, daqui a pouco vão tirar a Alemanha, depois vão tirar o Brasil. Se a gente não se juntar, dar as mãos, eles vão tirando um por um.” Dessa forma, o presidente sublinhou a necessidade de união entre os membros para preservar a estrutura e a legitimidade do fórum, que ele ajudou a consolidar em seu formato atual durante seus primeiros mandatos. Para ele, o G20 não é um “Conselho da Paz” controlado por interesses individuais.
Reafirmando a Natureza do G20
Ao ser questionado por jornalistas, o presidente Lula reiterou que as acusações de Trump sobre um suposto “genocídio branco” na África do Sul são absolutamente inverídicas e desprovidas de qualquer base factual. Ele enfatizou que o G20 é um foro multilateral destinado a resolver problemas econômicos, e que seus vinte membros fundadores possuem o direito inalienável de participar de suas discussões. Consequentemente, qualquer tentativa de exclusão unilateral desvirtuaria a essência do grupo, minando a confiança e a cooperação entre as nações.
Agenda Internacional e o Papel do Brasil
A defesa da África do Sul no G20 ocorreu durante a viagem oficial de Lula à Europa, que já incluiu a Espanha e, após a Alemanha, seguirá para Portugal antes do retorno a Brasília. Durante sua passagem por Hanôver, ele se reuniu com o chanceler alemão Friedrich Merz, reforçando laços diplomáticos e articulando a visão brasileira sobre questões globais. Por conseguinte, a intervenção de Lula na questão do G20 sinaliza o compromisso do Brasil com a ordem multilateral e a defesa da soberania e autonomia dos países em foros internacionais.


