Os Estados Unidos anunciaram investigação contra práticas comerciais brasileiras que consideram desleais, incluindo, contudo, o PIX. Você leu certo, de fato: o sistema de pagamento gratuito do Banco Central é citado em documento do governo Donald Trump como prática que “prejudica a competitividade” de empresas norte-americanas. Assim sendo, a investigação ocorre dias após o presidente americano anunciar tarifas de 50% sobre produtos brasileiros a partir de 1º de agosto.
PIX incomoda empresas americanas de cartão
Segundo o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), o Brasil então “parece se envolver em práticas desleais com relação a serviços de pagamento eletrônico”. Embora não cite diretamente o PIX, o documento se refere aos “serviços de pagamento eletrônico desenvolvidos pelo governo”.
A acusação pode estar relacionada ao fato de que o PIX se tornou sem dúvida alternativa popular aos cartões de débito oferecidos por empresas americanas como Mastercard e Visa. Além disso, outros sistemas que operam no país, como Apple Pay, Google Pay e Samsung Pay, intermediam transações com cartões dessas empresas.
Redes sociais reagem à ofensiva de Donald Trump
No entanto, os brasileiros não gostaram muito do posicionamento do presidente dos Estados Unidos da América. Assim, as redes sociais amanheceram nesta quarta-feira (16) com críticas à nova ofensiva americana contra o Brasil. Hashtags como #BolsotrumpContraoPix, #InimigosdoPix, #Bolsotaxa e #25deMarço chegaram ao topo dos assuntos mais comentados no antigo Twitter (agora, X).
Quem está contra o Brasil? Eduardo Bolsonaro pede sanções, taxação de 50%, o fim do PIX, ataca a 25 de Março. Enquanto isso, Bolsonaro espalha fake news sobre bomba com a China. Mas quem ameaça com uma bomba de verdade são eles. O inimigo está dentro.
— Fundação Perseu Abramo (@fpabramo) July 16, 2025
BOLSOTRUMP CONTRA O PIX pic.twitter.com/l1ngyjypZM
Trump quer enterrar o PIX!
— Senhora RIVOTRIL🚩❤️ (@SRivoltril) July 16, 2025
Mas não para por aí, não! O cara quer “acabar com a 25 de Março”! COMO ASSIM, BRASIL? Quer destruir o maior símbolo do capitalismo popular brasileiro? Quer exterminar o berço do comércio da gambiarra, da criatividade, da resistência empreendedora do… pic.twitter.com/6eaIGArdse
🚨URGENTE: governo Trump alega concorrência desleal e diz que punirá o Brasil pelo uso do Pix.
— Gustavo Veloso ⛵️ (@g_vgouvea) July 16, 2025
O sistema de pagamentos brasileiro, por ser gratuito e sem burocracia, incomoda os EUA.
BOLSOTRUMP CONTRA O PIX pic.twitter.com/IhZVYW03nb
BOLSOTRUMP CONTRA O PIX pic.twitter.com/Xpd1meC0cI
— Bacurau é aqui! (@BacurauA) July 16, 2025
Usuários acusaram Washington de proteger interesses de grandes operadoras de cartões de crédito. “O PIX é um sucesso popular que incomoda corporações bilionárias”, escreveu um usuário no X. Outros ironizaram: “Agora o problema dos EUA é que o PIX é rápido demais?”
Caso WhatsApp Pay pode ter motivado investigação
O caso do WhatsApp Pay também pode estar relacionado às críticas americanas ao PIX. Em junho de 2020, antes do lançamento do PIX, a Meta lançou o WhatsApp Pay no Brasil. Inicialmente, as transferências seriam por cartões da Mastercard e da Visa.
Uma semana depois, o Banco Central e o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) suspenderam o recurso, alegando preocupações quanto à falta de supervisão regulatória e concentração de mercado. Em novembro, o sistema próprio de pagamentos instantâneos e gratuitos do BC, o PIX, foi lançado.
Deputados cobram posicionamento de aliados de Bolsonaro
Entre os alvos de pressão está o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), que ainda não se manifestou sobre o caso. A cobrança se intensificou após usuários lembrarem que o parlamentar já havia feito vídeos virais sobre o PIX, na época, para criticar uma suposta tentativa de taxação durante o governo Lula, o que foi desmentido pelas autoridades.
Investigação do PIX abrange outras práticas brasileiras
A investigação utiliza a Seção 301 da Lei de Comércio de 1974 e abrange cinco práticas comerciais brasileiras consideradas “irracionais ou discriminatórias”. Além do PIX, o documento menciona tarifas preferenciais injustas, interferência anticorrupção, proteção da propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol e desmatamento ilegal.
O relatório também faz menções críticas a decisões do Supremo Tribunal Federal (STF), à movimentação comercial da Rua 25 de Março e a acordos internacionais firmados com países como Índia e México.
Rua 25 de Março no radar americano
Pois é! A famosa região comercial do centro de São Paulo aparece no documento americano como área de preocupação. Segundo o relatório, a movimentação comercial da Rua 25 de Março estaria relacionada a práticas que prejudicam produtos americanos.
25 de março, é nóis!!!
— Ana em BCN (@ana_fialho9) July 16, 2025
O laranjão num tem nem ideia disso aqui…..🤣🤣🤣
Mexeu num vespeiro que nem sabe. pic.twitter.com/4izYu48Gpd
A investigação sugere que o comércio local pode estar associado à pirataria e comercialização de produtos ilegais que competem com marcas americanas. Dessa forma, a tradicional rua do comércio popular paulistano se torna mais um ponto de atrito nas relações comerciais entre Brasil e Estados Unidos.
Parlamentares reagem à ofensiva americana
No Congresso, a repercussão foi imediata. A deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) classificou a medida como tentativa de retorno às taxas bancárias. “Trump quer o fim do PIX e que voltemos a pagar taxas para bancos e operadoras como Visa e Mastercard”, escreveu.
O deputado federal Rogério Correia (PT-MG) ironizou a ofensiva norte-americana. “Agora o Trump quer… acabar com o PIX no Brasil. Diz ele que é uma prática desleal com os EUA”, escreveu em publicação.
O que Donald Trump quer acabar no Brasil
A investigação americana mira seis práticas brasileiras consideradas desleais pelo governo Trump:
- Sistema PIX: O sistema de pagamento gratuito e instantâneo do Banco Central, que compete com empresas americanas como Visa e Mastercard.
- Tarifas preferenciais: Acordos comerciais do Brasil com países como Índia e México, que supostamente prejudicam exportadores americanos.
- Rua 25 de Março: A movimentação comercial da região central de São Paulo é citada como prática que afeta o comércio bilateral.
- Decisões do STF: O relatório menciona decisões do Supremo Tribunal Federal que impactam negócios americanos no país.
- Acesso ao mercado de etanol: Barreiras que dificultam a entrada de etanol americano no mercado brasileiro.
- Políticas ambientais: Medidas relacionadas ao desmatamento ilegal e licenciamento ambiental.
Governo brasileiro prepara resposta
De acordo com informações da assessoria, o governo brasileiro informou que pretende recorrer à Organização Mundial do Comércio (OMC) e aplicar medidas com base na Lei da Reciprocidade. O Ministério das Relações Exteriores acompanha o caso.
Segundo o USTR, haverá audiência pública sobre a investigação em 3 de setembro de 2025. Caso confirme que as práticas foram desleais, os EUA poderiam impor mais tarifas, restrições comerciais e até sanções.

