20.6 C
Guarulhos
ter, 09 jun 2026
- PUBLICIDADE -

Ditadura Militar Ensino Privado: Como o regime impulsionou escolas particulares com verba pública

PUBLICIDADE

Em 1976, no auge da ditadura militar brasileira, um evento em Foz do Iguaçu, no Paraná, marcou a transição de um bem público para a iniciativa privada. Uma escola municipal, a Escola Politécnica, construída com verbas federais para atender ao déficit educacional local, foi entregue dias antes de sua inauguração ao Colégio Anglo-Americano. Esta decisão beneficiou a instituição particular, contratada pela Itaipu Binacional para educar os filhos de seus funcionários, evidenciando o início de uma rede de ensino particular sustentada por recursos governamentais.

A Desapropriação da Educação Pública

O prédio da Escola Politécnica foi concebido para aliviar o crescente déficit escolar em Foz do Iguaçu, onde, à época, cerca de três mil crianças estavam fora das salas de aula, conforme relatos do governo estadual à imprensa. Contudo, essa infraestrutura essencial para a comunidade foi redirecionada para fins privados, alterando drasticamente o planejamento educacional da região.

PUBLICIDADE

José Kuiava, então inspetor de ensino municipal e professor aposentado da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), recorda-se vividamente do constrangimento gerado pela ordem. Por telefone, o diretor-geral da Secretaria de Educação (SEC) de Curitiba, professor Ernesto Penauer, instruiu-o a entregar as chaves do recém-construído prédio a Ney Suassuna, proprietário do Colégio Anglo-Americano. Anteriormente, Kuiava havia divulgado a inauguração pública da escola, o que tornou a revogação da informação particularmente delicada. Desse modo, foi preciso anunciar que o espaço seria destinado ao Anglo-Americano, a serviço da Itaipu.

O Contrato Lucrativo e a "Galinha dos Ovos de Ouro"

O contrato para a gestão da escola foi assinado em fevereiro de 1976, envolvendo o Anglo-Americano, a Itaipu e a Unicon, consórcio responsável pela construção da usina. Por meio desse acordo, as empreiteiras, financiadas por recursos públicos da Itaipu, garantiam o pagamento mínimo de mil vagas no colégio. No entanto, no primeiro ano de funcionamento, a instituição superou as dez mil matrículas, chegando a registrar mais de quatorze mil estudantes no pico das obras da hidrelétrica.

Adicionalmente, o contrato estipulava valores de mensalidades que variavam de CR$ 300 a CR$ 500, a serem integralmente custeados pela Itaipu, com reajustes anuais garantidos. Comparativamente, uma creche para crianças de baixa renda no Rio de Janeiro, em 1975, cobrava CR$ 70. Portanto, diferentemente de outras instituições privadas, o Anglo-Americano operava sem o risco de inadimplência.

Denise Sbardelotto, também professora da Unioeste, analisou o projeto pedagógico da Itaipu e caracterizou o contrato com o Anglo-Americano como desvantajoso para a administração pública. Segundo Sbardelotto, a Itaipu e a Unicom construíram toda a infraestrutura e forneceram mobiliário e material pedagógico, entregando o complexo para o Anglo-Americano administrar por muitos anos e, consequentemente, lucrar. Ela descreveu a situação como uma “galinha dos ovos de ouro” para a instituição privada.

Crescimento Exponencial e Ações Políticas

Antes da parceria com a Itaipu, o Colégio Anglo-Americano consistia em duas unidades tradicionais na zona sul do Rio de Janeiro. Após o contrato, a instituição registrou um crescimento extraordinário de 2.800%, conforme relatou o próprio Ney Suassuna, que expressou surpresa com a dimensão alcançada: “Eu fiquei pasmo de ver que era um mundo. O meu colégio no Rio tinha 500 alunos, o de lá tinha 14 mil”.

Ney Suassuna adquiriu o Anglo-Americano aproximadamente um ano antes do acordo com a Itaipu. De origem paraibana, ele consolidou sua carreira no Rio de Janeiro trabalhando no Ministério do Planejamento, um dos mais influentes órgãos durante o regime ditatorial. Ele atuou como assessor de ministros da pasta, incluindo Roberto Campos, uma figura proeminente do governo autoritário. Desse modo, suas conexões políticas foram instrumentais.

Conexões na Cúpula do Poder

O próprio Ney Suassuna confirmou que o contrato foi selado após um encontro solicitado por ele com o então diretor-geral da Itaipu, general José Costa Cavalcanti. Os laços políticos de Suassuna no Ministério do Planejamento foram cruciais para a obtenção da reunião. “Cheguei dizendo que era do Ministério do Planejamento, que tinha trabalhado com o ministro. Eu cheguei com o meu currículo na frente”, relatou, destacando a influência de seu histórico governamental no período.

PUBLICIDADE

VEJA TAMBÉM

REDES SOCIAIS

30,908FãsCurtir
10,600SeguidoresSeguir
5,417SeguidoresSeguir
3,070InscritosInscrever
PUBLICIDADE

ÚLTIMAS NOTÍCIAS