O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic) confirmou, em 24 de maio de 2026, que novas tarifas impostas pelos Estados Unidos atingirão cerca de US$ 6,6 bilhões (aproximadamente R$ 35 bilhões) em produtos brasileiros. Este montante representa 16,5% do total das exportações do Brasil para o mercado norte-americano. A medida configura um desafio significativo para a balança comercial do país.
A sobretaxa acumulada de 37,5% resulta da combinação de duas imposições tarifárias. Primeiramente, uma tarifa adicional de 25% já havia sido anunciada anteriormente pelo governo do ex-presidente Donald Trump. Posteriormente, uma nova sobretaxa de 12,5% foi divulgada na quinta-feira, 23 de maio de 2026. Contudo, quando ambas incidem sobre o mesmo produto, a alíquota total atinge 37,5%.
Entre os diversos itens afetados pelas novas medidas tarifárias, incluem-se máquinas e equipamentos, variados tipos de madeira, gorduras e óleos, calçados, móveis e confecções. De acordo com o governo brasileiro, as novas imposições afetam um total de 23,1% das exportações destinadas aos Estados Unidos, o que demonstra a amplitude do impacto sobre o comércio bilateral.
Distribuição do impacto tarifário nas exportações
A análise do Mdic detalha como as exportações brasileiras se distribuem sob o novo regime tarifário. Uma parcela significativa, de 52,7% (equivalente a US$ 21,3 bilhões), permanece isenta das novas sobretaxas. Por outro lado, 24,2% das exportações (cerca de US$ 9,8 bilhões) continuam sujeitas a tarifas setoriais já existentes nos Estados Unidos, fundamentadas na Seção 232 da legislação comercial americana. Enquanto isso, 16,5% do total, correspondendo aos mencionados US$ 6,6 bilhões, recebem a tarifa acumulada de 37,5%.
Além disso, uma parte menor das exportações também é atingida por alíquotas parciais. Aproximadamente 4,7% (US$ 1,9 bilhão) são tributados em 12,5%, e 1,9% (US$ 800 milhões) pagam apenas a sobretaxa de 25%. Felizmente, produtos essenciais como café, carnes, aeronaves, suco de laranja, frutas, ferro fundido, grande parte da celulose e diversos produtos químicos seguem sem as novas sobretaxas, garantindo certa estabilidade a setores importantes.
As ferramentas comerciais dos Estados Unidos
A Seção 301 da Lei de Comércio
Grande parte das recentes medidas americanas baseia-se na Seção 301 da Lei de Comércio dos Estados Unidos (Trade Act de 1974). Este dispositivo legal confere ao governo norte-americano autoridade para investigar práticas comerciais de outros países que possam ser consideradas injustas ou prejudiciais aos seus interesses. Consequentemente, caso Washington conclua haver violação ou discriminação, pode retaliar impondo tarifas adicionais sobre produtos importados.
No caso específico do Brasil, os Estados Unidos iniciaram duas investigações sob a Seção 301. Uma delas focou exclusivamente no Brasil, resultando na sobretaxa adicional de 25% para produtos específicos, apesar de uma lista de exceções ter sido ampliada posteriormente. A segunda investigação abordou políticas globais de combate ao trabalho forçado nas cadeias de suprimentos. Nesta apuração, o Brasil figurou entre as 41 economias que receberam a alíquota de 12,5%, aplicada a 60 parceiros comerciais dos EUA.
As restrições da Seção 232
A Seção 232 da Lei de Expansão Comercial dos Estados Unidos (Trade Expansion Act de 1962) possui um objetivo distinto. Ela permite ao governo americano impor restrições às importações sob a justificativa de risco à segurança nacional. Diferente da Seção 301, que mira práticas comerciais de países específicos, a Seção 232 geralmente estabelece tarifas para setores inteiros, abrangendo quase todos os parceiros comerciais dos EUA.
Este mecanismo serviu de base, por exemplo, para as tarifas sobre aço, alumínio e outros produtos industriais. O Mdic esclarece que produtos já sujeitos às tarifas da Seção 232 não acumulam as novas sobretaxas impostas pela Seção 301. As novas regras tarifárias entrarão em vigor em julho de 2026, embora haja exceções para mercadorias já embarcadas antes dessa data e que cheguem aos Estados Unidos dentro do prazo estipulado.
Desaceleração no comércio bilateral Brasil-EUA
O endurecimento das tarifas ocorre em um período de perda de ritmo do comércio entre os dois países. Após registrar um recorde de US$ 40,4 bilhões em exportações para os Estados Unidos em 2024, as vendas brasileiras apresentaram um recuo para US$ 37,7 bilhões em 2025. Consequentemente, a queda continuou ao longo de 2026, refletindo um cenário de menor dinamismo nas relações comerciais.
No primeiro semestre de 2026, as exportações brasileiras para o mercado norte-americano somaram US$ 17,4 bilhões, o que representa uma retração de 13% em comparação com o mesmo período de 2025. Os principais recuos ocorreram em petróleo bruto, com queda de 30,4%, e produtos semiacabados de ferro e aço, que registraram declínio de 21,7%. Assim, a participação dos Estados Unidos nas exportações totais do Brasil diminuiu de 12,1% para 9,4% entre os primeiros semestres de 2025 e 2026.


