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seg, 20 jul 2026
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Trabalho de Cuidado Feminino: Mulheres Enfrentam “Escala 7×0” e Expropriação de Tempo

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No Dia do Trabalhador, 1º de maio, enquanto muitos brasileiros desfrutam do feriado, uma parcela significativa da população feminina, especialmente mães e cuidadoras, enfrenta uma jornada ininterrupta. A pesquisadora Cibele Henriques, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), revela que essas mulheres vivem uma “escala 7×0” no âmbito do trabalho de cuidado feminino, evidenciando uma profunda desigualdade que permeia lares por todo o Brasil. Essa realidade, segundo a especialista, possui raízes históricas e econômicas que transformam o afeto em exploração, afetando drasticamente sua saúde mental e social.

A Sobrecarga do Trabalho de Cuidado Feminino

Dados oficiais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) demonstram que mulheres dedicam quase dez horas a mais por semana ao trabalho de cuidado de outras pessoas e do ambiente doméstico. Contudo, essa função, embora fundamental para a sociedade, não é remunerada e se manifesta como uma sobrecarga física, psíquica e social, privando as mulheres da possibilidade de manter sua saúde integral.

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A professora Cibele Henriques pontua que essa desigualdade tem profundas raízes históricas, edificadas sobre um discurso simbólico que perdura até os dias atuais. Ela enfatiza a insubstituibilidade do trabalho de reprodução humana, que atua como o “útero motor do capitalismo”, gerando capital humano. Ademais, para assegurar a execução deste trabalho, a sociedade, muitas vezes com o auxílio de instituições como a Igreja, cultiva a ideia de um amor materno mítico e de uma obrigação inerente à mulher.

Nesse sentido, a pesquisadora ecoa a filósofa feminista Silvia Federici, afirmando: “O que eles chamam de amor, nós chamamos de trabalho não pago.” O que se disfarça de afeto, na verdade, representa um trabalho extenuante que subtrai das mulheres o tempo e a energia essenciais para o seu próprio bem-estar e desenvolvimento.

Raízes Históricas e Econômicas da Desigualdade

Cibele Henriques, que estuda o tema do cuidado há anos e vivencia a sobrecarga como mãe, é co-fundadora do Observatório do Cuidado, um projeto que estimula a produção acadêmica sobre o tema. Ela também integra o Fórum de Mães Atípicas do Rio de Janeiro, uma iniciativa que conecta mães e busca incidência política, reforçando a importância de abordar o trabalho de cuidado feminino sob uma perspectiva econômica.

Por mais que as tarefas de cuidado sejam permeadas por amor e afeto, esses sentimentos acabam por justificar a exploração da mão de obra feminina na execução de um trabalho vital para a sociedade. A pesquisadora argumenta que, “se tempo é dinheiro, o dinheiro das mulheres é expropriado delas. Porque o tempo das mulheres é usado para cuidar dos outros”, caracterizando-as como grandes doadoras de tempo e de trabalho não pago para os homens.

Isso se manifesta tanto em lares onde as mulheres se dedicam exclusivamente ao cuidado familiar quanto naqueles em que conciliam uma ocupação remunerada fora de casa com as responsabilidades domésticas. Por conseguinte, mesmo em dias de folga, como o feriado do trabalhador, muitas mulheres utilizam seu tempo para afazeres domésticos, como lavar roupa, arrumar a casa ou adiantar compras, raramente reservando-o integralmente para si.

A Escala 7×0: Uma Realidade Invisível

Embora a discussão sobre a escala de trabalho 6×1 seja pertinente e necessite de avanços, Cibele Henriques destaca que as mulheres, em sua maioria, vivem uma escala 7×0. Ela sublinha que essa realidade é especialmente marcante para mulheres negras e periféricas, que frequentemente carecem de recursos para delegar ou transferir essas tarefas de cuidado. Por outro lado, mulheres de classe média alta geralmente possuem meios para terceirizar parte desse trabalho.

A Construção Social do Papel Feminino

A obrigação associada ao cuidado, segundo Cibele, é construída desde a infância através de brinquedos e narrativas que dissociam as esferas pública e privada, delegando o doméstico à mulher. Além disso, diversos discursos sociais desoneram os homens do cuidado e, concomitantemente, sobrecarregam as mulheres. Um exemplo é a realidade pós-divórcio, onde a mulher assume integralmente o cuidado dos filhos, e a responsabilidade do pai se restringe frequentemente ao pagamento da pensão alimentícia.

Todavia, essa dinâmica não é novidade, pois muitas mulheres já se configuram como mães solo mesmo dentro de um casamento. Os movimentos recentes que buscam reforçar o papel tradicional da mulher como cuidadora exclusiva representam, para a pesquisadora, uma resposta à insurgência feminina que desafia esse lugar imposto. Mas novamente, a raiz do problema é eminentemente econômica.

Respostas e a Perspectiva Econômica

A questão real reside na falta de oportunidades de trabalho para todos e no crescente nível de escolarização e competência das mulheres. O sistema capitalista, embora consolidado, enfrenta crises e se reconfigura. Dessa forma, a ideia de uma “esposa tradicional” pode ser interpretada como uma dessas reorganizações, uma tentativa de recolocar a mulher em um papel predeterminado. Trata-se de uma regressão com apelo mítico, mas com fundamentos em categorias econômicas, e não morais.

Além de impor uma sobrecarga significativa e relegar à mulher um trabalho não remunerado, a persistência desse modelo contribui para a violência de gênero, ao perpetuar desigualdades e limitar a autonomia feminina em diversas esferas da vida social e econômica.

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