O agravamento do conflito no Oriente Médio, intensificado desde fevereiro de 2024, revela o insucesso de um acordo supostamente mediado entre Irã e Estados Unidos. Esta escalada expõe a fragilidade das tentativas de cessar uma disputa que já custou milhares de vidas na região. Especialistas avaliam que a ofensiva atual reflete objetivos estratégicos não alcançados por Washington e Teerã.
Intensificação dos ataques mútuos
Nos últimos dias, a região testemunhou um aumento significativo nos ataques, com o Irã sendo alvo de bombardeios contra infraestruturas civis críticas. Pontes, hospitais, usinas de dessalinização de água e de produção de combustíveis, e até mesmo um canteiro de obras de uma usina nuclear, foram atingidos. Enquanto isso, o Irã também intensifica suas ações contra alvos em países do Golfo, como Jordânia, Bahrein e Kuwait.
Estas ações iranianas visam tanto bases militares dos EUA instaladas nesses países quanto infraestruturas civis, incluindo usinas de dessalinização e de produção de energia. A simetria nos alvos sublinha a natureza recíproca da escalada, onde ambos os lados parecem focar em debilitar as capacidades do adversário através de ataques a bens essenciais e estratégicos.
Acordo questionado por especialistas
O major-general português Agostinho Costa, especialista em segurança e geopolítica, afirmou à Agência Brasil que o memorando de entendimento assinado entre EUA e Irã não passou de uma “manobra diversionista”. Segundo ele, a medida foi uma resposta de Washington à baixa nas reservas de petróleo causada pelo fechamento do Estreito de Ormuz. Costa critica a validade de tais acordos, considerando-os “ficção” sem intenção real de cumprimento.
Para o ex-vice-presidente da Associação EuroDefese-Portugal, o cumprimento do memorando entregaria o controle da rota marítima de países “clientes” dos EUA, como Emirados Árabes Unidos, Bahrein e Kuwait, ao Irã. Portanto, o que está em jogo é a hegemonia norte-americana na região. Ele argumenta que a volta da ofensiva americana é uma tentativa de conter o que considera o “fim do império norte-americano”.
Jordânia como novo foco estratégico
O cientista político Ali Ramos, também especialista em geopolítica, explicou à Agência Brasil que a atual fase do conflito apresenta poucas diferenças em relação às anteriores, com uma notável exceção: os ataques mais pesados do Irã contra alvos na Jordânia. A Jordânia transformou-se no principal hub logístico da Força Aérea americana devido às vulnerabilidades das bases no Golfo.
Além disso, Ali Ramos aponta que o aeroporto Ben Gurion, em Israel, funciona como uma das maiores bases aéreas dos EUA na região, contudo, não tem sido atacado, servindo como uma espécie de santuário. Esta distinção na estratégia de ataques iranianos sublinha uma possível mudança de tática, focando em pontos de apoio logístico considerados mais expostos.
Objetivos não alcançados e estratégia de "terra arrasada"
Ali Ramos acrescenta que os principais objetivos anunciados pelos EUA para o conflito, como o fim do programa nuclear e balístico iraniano e o fim do apoio às milícias no Oriente Médio, não estão sendo alcançados. Por conseguinte, os EUA estariam escalando para uma estratégia de “guerra de terra arrasada”, exemplificada pelo ataque a uma fábrica de dessalinização que deixou milhares de pessoas sem água no Irã. Contudo, essa tática pode apenas conferir mais legitimidade ao regime iraniano.
Avaliação da estratégia e capacidade militar
Para o major-general Agostinho Costa, os EUA demonstram falta de uma nova estratégia para a atual fase do conflito contra o Irã, repetindo campanhas de bombardeio aéreo que já não produziam resultados desde fevereiro de 2024. Ele observa que os americanos evitam um empenho em invasão terrestre, mas julgam resolver um problema estratégico com um país da dimensão do Irã apenas com aeronaves.
Em contrapartida, o militar português avalia que as capacidades ofensivas do Irã têm se mostrado eficazes e não parecem deterioradas, diferentemente do que afirma o governo dos EUA. Ele descreve a situação como uma “gestão da escalada do conflito”, indicando que ainda não há um impasse e que a capacidade de intensificação mútua permanece elevada, sugerindo que a violência pode continuar a crescer.
Contexto e disputa pela hegemonia regional
Analistas consultados pela Agência Brasil indicam que as agressões lançadas por Israel e EUA contra o Irã, tanto em junho de 2025 quanto a partir de 28 de fevereiro de 2024, buscavam uma “troca de regime” no país persa. O objetivo seria deter a expansão econômica da China na região e consolidar a hegemonia política e militar de Israel no Oriente Médio. Diante do fracasso em derrubar o regime político da República Islâmica, os EUA afirmam buscar a retomada do status de navegação no Estreito de Ormuz como era antes do conflito.
No entanto, o governo iraniano defende que a gestão do Estreito de Ormuz, por onde transitavam antes da guerra cerca de 20% do comércio global de petróleo, deve ter um novo modelo a ser definido. Este impasse sobre o controle de uma das rotas marítimas mais estratégicas do mundo adiciona outra camada de complexidade e tensão a um conflito já multifacetado e com profundas raízes geopolíticas.


