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qui, 23 jul 2026
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Álcool e drogas em mortes violentas: Estudo da USP revela alta incidência no Brasil

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Um levantamento inédito realizado pela Universidade de São Paulo (USP) revelou que mais da metade (53%) das vítimas de mortes violentas em quatro capitais brasileiras apresentava álcool ou drogas no organismo. A pesquisa, que analisou 3.577 casos em Belém, Recife, Vitória e Curitiba, foi publicada recentemente na revista Toxics, apontando a complexa relação entre o uso de substâncias psicoativas e a mortalidade por causas externas no país.

A Metodologia por Trás dos Dados Alarmantes

O estudo teve como principal objetivo gerar dados padronizados e comparáveis acerca da influência de substâncias psicoativas em óbitos decorrentes de causas externas no Brasil. Para isso, o biomédico toxicologista Henrique Silva Bombana, pesquisador de pós-doutorado da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP (FCF-USP) e autor principal do artigo, liderou a equipe responsável pelas análises.

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A metodologia empregada incluiu a detecção de álcool, diversas drogas ilícitas e medicamentos psicoativos, utilizando protocolos laboratoriais rigorosamente padronizados. Além disso, a equipe adotou procedimentos operacionais meticulosos para minimizar perdas por degradação das amostras, um fator crucial para a precisão dos resultados. No caso do álcool, por exemplo, o armazenamento inadequado pode comprometer a análise, mascarando a real presença da substância no organismo.

A iniciativa foi viabilizada por meio de um convênio estabelecido em 2020 entre a USP e a Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas e Gestão de Ativos (Senad). As quatro capitais foram estrategicamente selecionadas considerando a magnitude do problema das mortes violentas e sua relevância como pontos nas rotas de tráfico de drogas.

Desse modo, a escolha dessas cidades reflete tanto a alta taxa de mortalidade por causas externas quanto a posição do Brasil como corredor de circulação internacional de entorpecentes, que frequentemente transitam pelo país antes de serem distribuídos para outros continentes. A coleta de dados ocorreu entre 2022 e meados de 2024, com equipes de quatro pesquisadores treinados em cada localidade.

Essas equipes eram responsáveis por colher amostras de sangue durante as necrópsias, que posteriormente eram congeladas e encaminhadas para o laboratório da USP. Lá, uma equipe de cinco pesquisadores realizava as análises detalhadas, garantindo a robustez dos resultados e a integridade da pesquisa.

Perfil das Vítimas e Substâncias Prevalentes

O perfil das vítimas reflete padrões já conhecidos da mortalidade violenta no país, sendo que 90% dos casos eram homens. Além disso, 56% das vítimas tinham 30 anos ou mais. Quanto à causa da morte, homicídios representaram 67% dos casos, contrastando com 15% por acidentes de trânsito e 9% por suicídios, o que sublinha a prevalência da violência intencional.

No tocante à demografia regional, observou-se que nas regiões Norte e Nordeste, a maioria dos indivíduos era classificada como “pardos” segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Por outro lado, nas regiões Sudeste e Sul, a maioria das vítimas era composta por “brancos”, revelando nuances regionais no impacto da violência.

Entre todas as vítimas analisadas, 53% testaram positivo para pelo menos uma substância psicoativa. As mais frequentemente detectadas incluíram cocaína (30%), álcool (28%), benzodiazepínicos (7%) e cannabis (2%). A pesquisa, contudo, identificou correlações específicas que merecem destaque.

A cocaína mostrou um predomínio expressivo nos casos de homicídio, enquanto o álcool foi a substância mais associada a mortes por acidentes de trânsito. Já os benzodiazepínicos prevaleceram em suicídios, sugerindo diferentes contextos e vulnerabilidades para o uso de cada substância, dependendo da natureza da morte violenta.

Desafios e Implicações para a Sociedade

Apesar da clareza dos dados sobre a presença das substâncias, Bombana salienta a complexidade de estabelecer uma associação direta entre elas e o homicídio, uma vez que a análise se concentra na vítima e não no agressor. Ainda assim, a elevada presença de cocaína sugere um cenário que vai além do uso agudo, remetendo ao contexto social e econômico do mercado ilegal.

Esse cenário, segundo o pesquisador, é alimentado pelo ambiente de tráfico, venda e compra que caracteriza a denominada violência estrutural. A presença de álcool em mortes no trânsito, por sua vez, constitui um problema crônico no Brasil, debatido há pelo menos três décadas sem uma solução efetiva até o momento.

Embora a legislação brasileira sobre o tema seja considerada robusta, o pesquisador levanta a hipótese de que a lacuna reside em um controle mais rigoroso sobre a comercialização do álcool. Desse modo, ele sugere que alguns países adotam regras bem mais restritivas para a venda de bebidas alcoólicas, o que poderia servir de modelo para o Brasil.

É importante ressaltar que, por se tratar de uma pesquisa transversal, o estudo oferece uma “fotografia” da realidade em um determinado momento, sem estabelecer relações de causa e efeito diretas. Para cada vítima, os pesquisadores registraram o tipo de morte e o resultado da análise toxicológica pós-morte. Portanto, os dados fornecem sinais de risco e correlações significativas, mas não determinam que as substâncias foram a causa primária do óbito, e sim um fator presente no momento da ocorrência.

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