A demógrafa Elza Salvatori Berquó faleceu nesta quinta-feira, 16 de maio de 2024, em São Paulo, aos 100 anos de idade. Reconhecida por sua profunda análise de dados populacionais e censitários, ela foi uma figura central na compreensão das transformações sociais brasileiras. Sua partida marca o fim de uma era para os estudos demográficos no país.
Ao longo de décadas, a cientista e professora dedicou-se à investigação dos complexos movimentos populacionais que moldaram o Brasil, especialmente entre os anos 1960 e 2000. Ela articulou centros de pesquisa vitais, os quais se tornaram pilares para entender a urbanização e o desenvolvimento demográfico nacional, com impacto direto na realidade de grandes centros como Guarulhos e a capital paulista. Além disso, Berquó foi uma incansável defensora dos direitos humanos.
Legado acadêmico e institucional
Natural de Guaxupé, Minas Gerais, Elza Berquó possuía uma formação multidisciplinar, inicialmente em Matemática pela Universidade Católica de Campinas. Posteriormente, ela aprofundou seus conhecimentos com um mestrado em Estatística na Universidade de São Paulo (USP) em 1949, e uma especialização em Bioestatística na Columbia University, nos Estados Unidos, no ano seguinte. Contudo, sua carreira acadêmica na USP foi interrompida em 1968, quando foi compulsoriamente aposentada.
Em 1965, Berquó já demonstrava sua expertise ao analisar o desenvolvimento da população paulista, utilizando dados dos censos de 1940 e 1950, um trabalho fundamental para a compreensão da Grande São Paulo. Após sua saída da USP, ela não cessou suas atividades; pelo contrário, participou ativamente da fundação do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) em 1969, ao lado de intelectuais como Fernando Henrique Cardoso, Octávio Ianni e José Arthur Giannotti. Enquanto isso, o Cebrap surgia como um espaço de resistência intelectual durante o período da ditadura militar.
Além do Cebrap, Berquó foi uma das fundadoras do Núcleo de Estudos de População da Unicamp (Nepo-Unicamp), instituição que hoje leva seu nome desde 2014. O Nepo se tornou um centro de excelência em estudos demográficos, impulsionando a pesquisa e o ensino na área. O ex-coordenador do Nepo, José Marcos Cunha, afirmou que “Elza é a história da demografia no Brasil e, particularmente, da Unicamp”.
Defesa dos direitos reprodutivos e sociais
A atuação de Elza Berquó estendeu-se para a defesa intransigente do acesso a métodos contraceptivos e aos direitos reprodutivos para toda a população. Ela abordou com rigor temas como o aborto e a mortalidade infantil, buscando sempre uma discussão consciente e esclarecida. Para Jacqueline Pitanguy, fundadora da ONG Cepia Cidadania, Berquó “trouxe ao mesmo tempo o rigor acadêmico e o compromisso político com os direitos humanos, o que é uma coisa rara”.
Em 1995, a demógrafa fundou e presidiu a Comissão Nacional de População e Desenvolvimento (CNPD), um órgão do governo federal. Esta comissão atua no assessoramento de decisões estratégicas para políticas públicas baseadas em evidências. Richarlls Martins, atual presidente da CNPD, destacou que Berquó “acreditou profundamente no Brasil, contribuiu para a ampliação dos direitos humanos de todas as pessoas, viu pessoas atrás dos números e defendeu ao longo de toda sua vida, no marco dos seus 100 anos, a democracia e as políticas públicas baseadas em evidências”.
Inspiração para gerações futuras
A celebração de seu centenário, ocorrida em outubro de 2023, centralizada no Nepo-Unicamp, serviu como uma justa homenagem à sua presença e ao seu legado inestimável. Na ocasião, a cientista social e coordenadora do Nepo, Gláucia Marcondes, lamentou a perda, mas celebrou as conquistas de Berquó: “Hoje é um dia triste porque perdemos uma mulher fantástica, uma cientista inspiradora. Mas, ao olhar para a vida de Elza, celebramos suas conquistas, as pessoas que ela formou, as instituições que criou e sua trajetória incrível”.
O reconhecimento de sua importância transcende o meio acadêmico, alcançando esferas governamentais e de planejamento. O acadêmico Eduardo Rios Neto, que trabalhou com Berquó na Associação Brasileira de Estudos Populacionais (ABEP), ressaltou que Elza é “a mãe da demografia brasileira”, com uma trajetória excepcional na criação de instituições como ABEP, NEPO e CNPD. Portanto, seu trabalho continua a inspirar novas gerações de pesquisadores e formuladores de políticas públicas no Brasil.


