O laureado com o Prêmio Nobel de Economia de 2010, Christopher Pissarides, afirmou que o impacto da Inteligência Artificial (IA) sobre o mercado de trabalho tem sido superestimado. Ele participou da 25ª Conferência da Society for the Advancement of Economic Theory (SAET), realizada no Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA), no Rio de Janeiro, em maio de 2024, onde apresentou uma perspectiva que atenua os temores de desemprego em massa.
Pissarides, especialista em dinâmica do mercado de trabalho, indicou que a IA atua majoritariamente como uma ferramenta de assistência aos trabalhadores, e não como um fator de substituição de mão de obra. No cenário macroeconômico, as demissões em grandes empresas de tecnologia, embora recebam ampla cobertura, representam um volume reduzido quando comparadas ao panorama geral do emprego. Portanto, não justificam a apreensão generalizada.
Otimismo e novas oportunidades de trabalho
A análise do economista aponta para um crescimento da demanda em setores tradicionais, como a construção civil, além do surgimento de novas profissões. Essas novas áreas incluem funções ligadas à segurança, manutenção, robótica e análise de dados de programas, demonstrando a capacidade da economia de se adaptar e criar valor em face das inovações tecnológicas.
Contudo, Pissarides também abordou a velocidade com que as habilidades profissionais se tornam obsoletas. Uma pesquisa liderada por ele concluiu que profissionais da área de tecnologia são mais impactados pela necessidade de aprendizado contínuo para se manterem relevantes. Em contrapartida, carreiras focadas na educação e no cuidado humano, como professores e enfermeiros, registraram poucas mudanças nas qualificações exigidas ao longo de quase uma década.
Desafios: desigualdade regional e precarização salarial
Apesar do cenário macroeconômico otimista quanto ao volume de empregos, o Nobel de Economia expressou preocupação com a distribuição geográfica e financeira dos benefícios da IA. A tecnologia, em sua visão, tem centralizado a riqueza, criando uma divisão econômica acentuada. Cerca de 60% dos investimentos em IA se concentram em grandes metrópoles e polos de elite, como o eixo Londres-Oxford-Cambridge no Reino Unido, o que marginaliza regiões interiores e periféricas.
Adicionalmente, Pissarides destacou um problema para empregos mais resistentes à automação, como os setores de hotelaria e enfermagem: a precarização salarial. Visto que dependem do contato humano e não experimentam saltos de produtividade por meio de algoritmos, esses setores correm o risco de estagnação salarial se não houver uma intervenção governamental que garanta remunerações adequadas. Portanto, o financiamento público torna-se crucial para a valorização desses profissionais.
Educação para a era da inteligência artificial
O professor defendeu uma reforma nos sistemas educacionais, criticando a especialização precoce das escolas. Para que os trabalhadores possam prosperar na era da IA, a melhor estratégia não reside no domínio de um código técnico específico, mas sim na capacidade de “aprender a aprender”. Isso implica combinar um sólido conhecimento em ciências exatas com uma forte base em ciências sociais e humanidades, preparando indivíduos para a adaptabilidade constante.
Conferência de teoria econômica reúne especialistas
A 25ª Conferência da Society for the Advancement of Economic Theory (SAET) é um evento internacional focado na teoria econômica. A edição deste ano, que se estendeu até sábado, dia 18, no IMPA, também contou com a presença de outros vencedores do Prêmio Nobel de Economia, como James Heckman, de 2000, e Lars Peter Hansen, de 2013, ambos da Universidade de Chicago. Além disso, a conferência prestou uma homenagem especial aos 80 anos do economista brasileiro Aloisio Araujo, pesquisador emérito do IMPA e professor da Fundação Getulio Vargas.


