[EDITORIAL]
Governos são passageiros, mas algumas práticas parecem eternas e resistem à mudança. O apóstolo Paulo já alertava para os perigos da vaidade e do orgulho desmedido, condenando atitudes que colocam o ego acima do bem comum (ver, por exemplo, Filipenses 2:3: “Nada façais por partidarismo ou vanglória, mas por humildade”).
Nicolau Maquiavel, em sua obra clássica O Príncipe (1513), dedicou um capítulo inteiro (Capítulo XXIII, “Como escapar aos aduladores”) a advertir os governantes sobre o risco dos bajuladores: eles isolam o líder da realidade, alimentam ilusões e impedem decisões sábias, pois os homens tendem a se iludir com elogios falsos e a afastar vozes críticas.
Infelizmente, essas lições antigas parecem pouco absorvidas nos governos modernos. Muitos tratam a opinião crítica como inimiga passageira, em vez de instrumento valioso para a melhoria contínua e a correção de rumos.
Grandes líderes políticos entendiam o valor oposto. André Franco Montoro, governador de São Paulo (1983–1987) e figura emblemática da redemocratização brasileira, valorizava a pluralidade de ideias. Ele formava colegiados e equipes com visões diversas, respeitando o debate e a divergência como fontes de enriquecimento: “cada crítica que consigo solucionar equivale a 100 bajuladores”, ela reflete bem seu estilo: Montoro via na crítica construtiva uma oportunidade de aperfeiçoamento, muito mais útil que o aplauso fácil e conformista. Seu legado enfatiza o respeito à diversidade de opiniões e o diálogo como pilares da boa governança.
Da mesma forma, Dick Cheney, vice-presidente dos Estados Unidos (2001–2009) e um dos mais influentes estrategistas da era Bush, alertava sobre os riscos de o governo se fechar em uma “bolha” (ou echo chamber). Ele argumentava que, quando líderes se cercam apenas de concordâncias, perdem o “oxigênio” do debate externo: o ar fica rarefeito, as decisões se tornam obsoletas e o sistema caminha para o colapso.
Cheney frequentemente criticava ambientes isolados que filtram informações contrárias, levando a erros graves de avaliação (como discutido em análises de sua atuação em inteligência e política externa). Esses exemplos históricos — de Paulo e Maquiavel aos modernos Montoro e Cheney — precisam ser observados com atenção pelo governo local. A crítica inteligente e sincera deve ser vista não como ameaça, mas como ferramenta essencial de renovação e aprimoramento. O diálogo aberto, plural e respeitoso é fundamental para que as boas ações respirem e prosperem, evitando que a bolha dos bajuladores sufoque o progresso e a accountability.
Em tempos de polarização e redes que amplificam ecos, fugir da adulação e acolher vozes diversas não é fraqueza — é sabedoria política atemporal.


