Para muitas mulheres, o emagrecimento torna-se significativamente mais desafiador após a menopausa, período em que as alterações hormonais impactam profundamente o metabolismo. A queda de estrogênio, por exemplo, favorece o acúmulo de gordura e influencia o apetite, além de elevar o risco de doenças como diabetes tipo 2. Um estudo recente da Mayo Clinic, publicado na The Lancet, reacendeu o debate ao revelar resultados promissores com a combinação de terapia hormonal e tirzepatida, medicamento para diabetes e obesidade. Assim sendo, a compreensão desses mecanismos é fundamental para abordagens eficazes.
A Influência Hormonal no Controle de Peso
A doutora em Fisiologia da Reprodução Isabelle Rodrigues dos Santos, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, salienta que a queda do estrogênio é um fator crucial nessa dificuldade. Com efeito, com a redução desse hormônio ao longo da vida, especialmente na perimenopausa e menopausa, ocorrem mudanças na composição corporal, como o aumento da gordura abdominal e a perda de massa muscular. Consequentemente, o metabolismo geral é alterado, evidenciando uma base fisiológica importante que transcende apenas os hábitos de vida.
Além disso, a resposta ao estresse desempenha um papel importante sobre o metabolismo feminino nesse período, conforme explica a pesquisadora. A menopausa não se resume apenas às mudanças hormonais, mas também engloba sintomas como ondas de calor, suores noturnos e a piora do sono, que afetam diretamente o bem-estar. Uma vez que o sono é comprometido, aumenta-se a ansiedade e o desconforto físico, impactando a motivação para manter hábitos saudáveis, como alimentação equilibrada e atividade física regular.
Terapia Hormonal e Qualidade de Vida na Menopausa
Nesse contexto, a terapia hormonal emerge como uma ferramenta capaz de modular indiretamente a resposta ao estresse, contribuindo significativamente para a melhora dos sintomas menopáusicos. A pesquisadora Isabelle Rodrigues dos Santos aponta que essa abordagem favorece maior disposição e regularidade nos hábitos de vida, desde uma noite de sono mais reparadora até a manutenção de uma alimentação equilibrada. Embora não seja um tratamento direto para o emagrecimento, a terapia hormonal aprimora o cenário fisiológico geral, o que impacta positivamente o controle do ganho de peso ao atuar sobre os níveis de estrogênio.
Contudo, o ginecologista Rui Alberto Ferriani, também professor da FMRP, esclarece que a terapia hormonal é primariamente indicada para mulheres com sintomas vasomotores intensos, como ondas de calor, ou quadros de atrofia genital, onde o uso de estrogênio se mostra mais adequado. Todavia, a terapia não é recomendada para pacientes com contraindicações importantes, incluindo cânceres dependentes de estrogênio, como o de mama, e risco aumentado de trombose. A avaliação individual é crucial e, portanto, deve ser minuciosa antes de iniciar qualquer tratamento, considerando a indicação principal em casos de excesso de peso com comprometimento metabólico.
Novas Abordagens: Tirzepatida e Pesquisas Futuras
A recente pesquisa da Mayo Clinic, publicada na editoria Obstetrics, Gynaecology & Women’s Health da The Lancet, trouxe à tona um dado relevante sobre a combinação de tratamentos. Mulheres na pós-menopausa que associaram terapia hormonal com tirzepatida, um fármaco empregado no tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade, apresentaram uma perda de peso superior em até 35% em comparação àquelas que utilizaram apenas o medicamento. Por conseguinte, estes resultados reacendem o debate sobre o potencial sinérgico dessas abordagens na gestão do peso, oferecendo novas perspectivas.
Apesar do estudo, o professor Ferriani reforça que a indicação da tirzepatida permanece atrelada primariamente à obesidade ou ao sobrepeso que acarreta repercussões clínicas, independentemente do status menopáusico da mulher. O trabalho emergente, embora estabeleça uma relação entre o benefício do medicamento para perda de peso em usuárias de terapia hormonal, não altera as indicações estabelecidas para a terapia hormonal em si. Portanto, a decisão de uso deve sempre considerar o quadro clínico completo da paciente e suas particularidades.


