Organizações da sociedade civil de todo o mundo, incluindo entidades brasileiras como o Instituto de Defesa de Consumidores (Idec), lançaram em dezembro de 2022 a campanha ‘Tirem o Refrigerante de Campo’, visando banir o patrocínio de bebidas açucaradas das futuras Copas do Mundo. A iniciativa pressiona a Federação Internacional de Futebol (FIFA) a revisar seus acordos comerciais, alegando riscos significativos para a saúde pública global.
A campanha é endossada por mais de 100 organizações de diversos países, com foco nas áreas de saúde, meio ambiente e direitos da infância. Oito delas são brasileiras, entre as quais se destacam o Idec, o Instituto Desiderata e a Aliança pela Alimentação Saudável. Atualmente, a Coca-Cola figura entre as marcas que patrocinam a FIFA e suas competições, incluindo o mundial de futebol.
A principal motivação por trás do movimento reside na crescente preocupação com os impactos das bebidas açucaradas na saúde. Estudos indicam uma forte ligação entre o consumo desses produtos e o desenvolvimento de condições como obesidade, diabetes tipo 2 e outras doenças cardiovasculares, que afetam milhões de pessoas em todo o planeta.
Dados da campanha alertam que, para cada aumento diário de 250 mililitros na ingestão de bebidas adoçadas, o risco de obesidade cresce 12%. Além disso, a probabilidade de desenvolver diabetes tipo 2 sobe 19%, e o risco de mortalidade por causas cardiovasculares aumenta 13%. Consequentemente, o risco de mortalidade por todas as causas eleva-se em 5%. A diretora executiva do Instituto Desiderata, Renata Couto, reforça que, para a maioria das crianças e adolescentes, um refrigerante de 355 ml já excede a quantidade diária recomendada de calorias provenientes de açúcares livres, comprometendo a saúde a longo prazo.
A carta à FIFA e o conceito de sportswashing
As entidades promotoras da campanha encaminharam uma carta aberta ao presidente da FIFA, Giovanni Infantino, manifestando preocupação com a prática de ‘sportswashing’. Este termo, que se traduz como ‘maquiagem esportiva’, descreve a estratégia de marcas associarem produtos nocivos à saúde com o bem-estar e o esporte para melhorar sua imagem pública. A carta alerta que, durante a Copa de 2026, até 6 bilhões de torcedores, muitos deles crianças, serão expostos a campanhas que ligam estrelas do futebol a bebidas que causam doenças.
Para Renata Couto, a publicidade de marcas de refrigerante tem consequências profundas no público infantojuvenil. Ela explica que essa é uma estratégia de marketing eficiente para fidelizar esses consumidores desde cedo, moldando comportamentos alimentares não saudáveis. Portanto, o impacto na saúde pode ser percebido a curto, médio e longo prazos, gerando desafios para a saúde pública.
Precedente: A saída do tabaco dos esportes
A campanha ‘Tirem o Refrigerante de Campo’ recorda que a indústria do tabaco enfrentou pressão similar no passado, o que resultou na sua exclusão como patrocinadora de grandes eventos esportivos. Um exemplo notório é a Fórmula 1, que, entre as décadas de 1990 e 2000, gradualmente removeu as companhias de tabaco de seu rol de patrocinadores principais. Assim, as entidades esperam que a FIFA adote uma postura semelhante em relação às bebidas açucaradas.
Até meados de dezembro de 2022, o site da campanha registrava cerca de 720 mil apoiadores. Contudo, apesar do grande engajamento público e do envio da carta, a Agência Brasil informou não ter recebido comentários da FIFA sobre o assunto até a conclusão da reportagem original, evidenciando a ausência de uma resposta oficial da entidade sobre as cobranças.
Outras controvérsias: A publicidade de bets
Enquanto a publicidade de bebidas açucaradas gera debate, outra controvérsia envolvendo propaganda na Copa do Mundo é a proliferação de anúncios de plataformas digitais de aposta, conhecidas como ‘bets’. Essa prática também atraiu críticas da sociedade civil e de autoridades. No Brasil, em 10 de dezembro de 2022, portarias ministeriais impuseram uma série de restrições a esse tipo de publicidade, incluindo a obrigatoriedade de alertas como ‘Apostar pode causar dependência’ e ‘Aposta não é investimento’, buscando mitigar os riscos associados ao jogo.


